Por Mário Plaka (*)
Muito antes da expressão “fake news” ganhar o vocabulário moderno, a mentira organizada já operava como arma de destruição em massa — e Canudos é uma das provas mais cruéis disso na história do Brasil.
O massacre narrado em Os Sertões, de Euclides da Cunha, não foi apenas uma guerra entre o Estado e um povoado sertanejo. Foi também o resultado devastador de uma narrativa mentirosa construída para demonizar, desumanizar e justificar a eliminação de brasileiros pobres.
A comunidade de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro, foi apresentada à nação como ameaça fanática, monarquista e subversiva. A imprensa da época, aliada ao poder político, espalhou versões falsas e distorcidas sobre aquela população miserável, composta por retirantes, trabalhadores, ex-escravizados e famílias abandonadas pelo poder público. Criou-se um inimigo imaginário. E, quando um inimigo é inventado, toda violência contra ele passa a parecer legítima.
A mentira cumpriu seu papel: inflamou autoridades, manipulou a opinião pública e pavimentou o caminho para o massacre. Homens, mulheres, idosos e crianças morreram porque alguém decidiu transformar preconceito em notícia, medo em manchete e falsidade em verdade oficial. Canudos foi destruída não apenas pelos canhões do Exército, mas também pelas palavras falsas que a condenaram antes mesmo da batalha começar.
É isso que torna esse episódio tão atual e tão perturbador. A fake news não nasceu com a internet, nem com redes sociais. Ela sempre existiu — mudaram apenas os meios. Ontem corria nos jornais impressos e discursos oficiais; hoje corre em telas e aplicativos. Mas sua essência permanece a mesma: destruir reputações, sabotar projetos, manipular consciências e, em casos extremos, matar.
A mentira deliberada é uma das faces mais perversas da maldade humana, porque age de forma invisível e covarde. Quem cria ou espalha uma notícia falsa raramente vê diretamente o sangue que ela derrama. Mas ele existe. Está nas vidas interrompidas, nos sonhos esmagados, nas comunidades arrasadas, nas injustiças irreversíveis. E quando a verdade finalmente aparece, muitas vezes já não há reparação possível. Os mortos não voltam. As feridas coletivas permanecem.
Na semana em que se celebra o Dia do Jornalista, Canudos nos impõe uma reflexão indispensável: informar é uma responsabilidade moral. A imprensa, quando se rende à manipulação, deixa de cumprir seu papel civilizatório e se torna cúmplice da barbárie. O compromisso com a verdade não é apenas um dever profissional — é um dever humano.
A história de Canudos permanece como advertência eterna: uma mentira repetida com força suficiente pode destruir um povo inteiro. Quando a falsidade se transforma em estratégia de poder, ela deixa de ser apenas desinformação e passa a ser instrumento de dominação. Políticos, militantes e grupos que fazem da mentira um método corroem a confiança pública, deformam a verdade e empurram sociedades inteiras para o caos moral. A mentira, quando institucionalizada, não apenas engana — ela mata reputações, destrói projetos, apaga sonhos e compromete o futuro de uma nação.























