Por William Saliba (*)
Há guerras que se travam nas trincheiras. Outras, muito mais perigosas, são travadas contra a própria sobrevivência das populações.
O Kuwait iniciou esta semana diante de uma emergência nacional. Mísseis iranianos atingiram uma estação de dessalinização de água do mar, principal fonte de abastecimento do país. Em paralelo, refinarias e campos petrolíferos do Irã passaram a sofrer ataques norte-americanos, enquanto Teerã amplia sua ofensiva contra vizinhos árabes.
No Leste Europeu, a Ucrânia intensifica ataques com drones contra refinarias russas, atingindo um dos pilares da economia de Moscou e provocando uma crise de abastecimento de combustíveis que já é considerada uma das mais graves das últimas décadas.
Esses episódios revelam uma mudança profunda na forma de fazer guerra.
As batalhas do século XXI deixaram de priorizar apenas a destruição de exércitos. O objetivo agora é sufocar países inteiros. Água, energia elétrica, combustíveis, telecomunicações, logística e produção industrial transformaram-se em alvos militares preferenciais.
Com o emprego de inteligência artificial, drones autônomos, mísseis de precisão e sistemas avançados de defesa, a infraestrutura civil converteu-se na linha de frente dos conflitos modernos. Pontes, túneis, aeroportos, portos, refinarias, oleodutos, hidrelétricas, usinas nucleares e sistemas de abastecimento de água passaram a ser tratados como objetivos estratégicos.
O resultado é devastador.
Quando uma estação de tratamento deixa de operar, não falta apenas água. Hospitais entram em colapso. Indústrias param. A produção de alimentos é comprometida. A economia trava. Quando uma refinaria é destruída, não desaparece apenas o combustível. Desaparece o transporte de mercadorias, a mobilidade urbana, o abastecimento e a própria capacidade produtiva de uma nação.
As vítimas não são apenas os soldados.
São milhões de civis submetidos à escassez, ao medo e ao colapso de serviços essenciais.
Enquanto isso, o mapa geopolítico torna-se cada vez mais explosivo. O Irã amplia suas frentes de confronto no Oriente Médio. Rússia e Ucrânia permanecem mergulhadas numa guerra sem horizonte de encerramento, sob o permanente risco de envolver outros países europeus. No Indo-Pacífico, a China mantém a pressão sobre Taiwan, que intensifica seus preparativos para uma eventual invasão.
Basta uma decisão equivocada, um erro de cálculo ou um ataque fora de controle para que o conflito regional ultrapasse fronteiras e adquira dimensões globais.
Ainda assim, grande parte da imprensa internacional parece tratar cada episódio como um fato isolado, quando, na realidade, todos fazem parte de um mesmo tabuleiro geopolítico em acelerada transformação.
O Brasil, infelizmente, também parece assistir a essa aterrorizante mudança histórica como mero espectador.
Num momento em que o mundo redefine alianças estratégicas, fortalece sua capacidade de defesa e reorganiza cadeias globais de energia e abastecimento, a política externa brasileira transmite uma preocupante sensação de omissão. Falta protagonismo, clareza estratégica e uma diplomacia capaz de posicionar o país com firmeza diante de um cenário internacional que se deteriora a cada semana.
Não se trata de escolher lados em guerras alheias. Trata-se de defender, acima de tudo, os interesses permanentes da Nação brasileira.
Nossa segurança alimentar, energética, comercial e diplomática depende de um mundo minimamente estável. Ignorar essa realidade ou agir como se ela não existisse pode custar caro ao país.
O estopim já foi aceso.
Se água e petróleo se consolidarem definitivamente como as principais armas geopolíticas do século XXI, o planeta poderá assistir a um conflito de proporções jamais vistas desde a Segunda Guerra Mundial.
Que Deus ilumine os governantes do mundo.
E que o Brasil desperte antes que seja tarde demais.
(*) William Saliba é jornalista profissional há 56 anos e presidente do Conselho da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados (AJOIA Brasil).

























