O Brasil voltou a ser alvo de questionamentos comerciais por parte dos Estados Unidos. Um relatório divulgado nesta terça-feira (2) pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu que o país não tem adotado medidas suficientes para impedir a entrada de produtos fabricados com mão de obra forçada em seu mercado, situação que, segundo o órgão norte-americano, gera desequilíbrios na concorrência internacional.
Com base nessa avaliação, o governo dos Estados Unidos propôs a aplicação de uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros, em mais um capítulo das disputas comerciais envolvendo os dois países.
O documento coloca o Brasil entre 54 economias que, na avaliação do USTR, não possuem mecanismos legais adequados para barrar a importação de mercadorias produzidas total ou parcialmente com trabalho forçado. Embora reconheça a existência de compromissos assumidos pelo país em acordos comerciais e de investimentos, o relatório sustenta que tais instrumentos não estabelecem uma proibição direta e efetiva para a entrada desses produtos no mercado brasileiro.
Além da ausência de uma legislação considerada específica, o texto afirma que o Brasil também falha na fiscalização e aplicação de medidas contra esse tipo de prática. Segundo o órgão norte-americano, sem uma proibição formal, não há instrumentos suficientes para garantir a efetividade do controle.
PECUÁRIA BRASILEIRA É UM DOS PRINCIPAIS ALVOS
Entre os setores citados no relatório, a produção de carne bovina recebe destaque. O USTR afirma que há registros documentados de utilização de trabalho forçado em atividades ligadas à pecuária brasileira, mencionando estudos que apontam a presença de produtores rurais na chamada Lista Suja do Trabalho Escravo, cadastro mantido pelo governo federal.
O documento destaca ainda o crescimento das exportações brasileiras de carne bovina congelada ao longo da última década. De acordo com os dados apresentados, cerca de 90% das exportações brasileiras do produto em 2025 tiveram como destino países que também estão sob investigação comercial dos Estados Unidos.
A China aparece como principal exemplo dessa expansão. O relatório aponta que as exportações brasileiras de carne bovina congelada para o mercado chinês saltaram de aproximadamente 94 mil toneladas em 2015 para quase 1,65 milhão de toneladas em 2025. No mesmo período, as vendas norte-americanas para o país asiático registraram tendência de queda.
Outro ponto destacado é a diferença de preços. Segundo o USTR, o valor médio da carne bovina brasileira importada pela China em 2025 foi cerca de 41% inferior ao da carne exportada pelos Estados Unidos, fator que, na avaliação do órgão, pode representar uma vantagem competitiva associada a custos reduzidos.
ALGODÃO E OUTROS PRODUTOS TAMBÉM ENTRAM NA ANÁLISE
O relatório não se limita ao setor pecuário. O comércio de algodão também é citado entre os exemplos utilizados pelos Estados Unidos para justificar a investigação.
Dados apresentados pelo USTR indicam que o Brasil importou algodão da China entre 2021 e 2025, movimentando valores que chegaram a US$ 63 milhões no último ano analisado.
Além disso, o órgão argumenta que o Brasil importou, nesse período, matérias-primas e insumos oriundos de países associados a riscos de trabalho forçado, incluindo produtos como alumínio, cacau, café, níquel, arroz, tabaco, amendoim e polissilício. Segundo o relatório, parte desses insumos teria sido utilizada em cadeias produtivas que posteriormente exportaram bens para o mercado norte-americano.
ALEGAÇÃO DE CONCORRÊNCIA DESLEAL
Na avaliação do governo dos Estados Unidos, a ausência de barreiras mais rígidas contra produtos vinculados ao trabalho forçado gera uma concorrência considerada desleal para empresas norte-americanas.
O relatório afirma que diversos países investigados importam simultaneamente produtos dos Estados Unidos e de nações associadas ao uso de trabalho forçado, criando uma disputa comercial em condições que o órgão considera desequilibradas.
A proposta de aplicação da tarifa adicional de 12,5% faz parte desse conjunto de medidas em análise e poderá impactar diversos setores exportadores brasileiros caso seja efetivamente adotada pelo governo norte-americano.























