Por Mário Plaka (*)
Estados Unidos, China, Japão, Uruguai e Brasil: realidades diferentes, problemas próprios e uma pergunta comum — o que acontece com uma nação quando o poder se distancia das necessidades do povo? Às vésperas do segundo turno, o eleitor precisa olhar além da propaganda, dos escândalos e das promessas.
Uma nação não se desestrutura de um dia para o outro. O enfraquecimento das instituições, a corrupção, a desinformação, a concentração de poder e a perpetuação de grupos políticos são processos que podem se acumular ao longo dos anos, comprometendo a confiança pública e a capacidade do Estado de responder às necessidades da população. Basta observar diferentes realidades pelo mundo.
Os Estados Unidos, a maior economia do planeta, convivem com uma grave crise habitacional e com milhões de pessoas abaixo da linha oficial de pobreza. A China combina desenvolvimento econômico e tecnológico em escala gigantesca com desigualdades de oportunidades, restrições políticas e dificuldades enfrentadas por parte dos trabalhadores migrantes. O Japão, referência internacional em tecnologia e organização, também enfrenta pobreza relativa e vulnerabilidade de famílias. O Uruguai, com outra dimensão econômica e social, continua convivendo com a pobreza infantil.
Não são países iguais, nem seus problemas têm a mesma origem. O que essa comparação permite compreender é que riqueza nacional, desenvolvimento e propaganda política não são medidas suficientes para avaliar a qualidade de uma sociedade. É preciso investigar quem se beneficia do crescimento, quem permanece à margem e como as instituições respondem às necessidades de seus cidadãos.
Na China, a imagem do Pequeno Livro Vermelho, associado a Mao Tsé-Tung, remete a um período em que a ideologia oficial ocupava lugar central na vida política. Hoje, a realidade chinesa é muito mais complexa, mas a concentração de poder e os limites à oposição política continuam sendo questões relevantes.
Em outros países, a permanência de famílias influentes, grupos econômicos e estruturas tradicionais de poder também merece escrutínio público. O problema não está simplesmente em uma liderança permanecer no poder por meio de eleições legítimas, mas em saber se existem transparência, alternância efetiva, fiscalização independente e igualdade de condições para a disputa política. Quando o poder deixa de prestar contas, a sociedade perde instrumentos fundamentais para corrigir seus próprios erros.
É nesse cenário que corrupção, escândalos e notícias falsas precisam ser tratados com seriedade. A corrupção desvia recursos, distorce prioridades e compromete a confiança nas instituições. A mentira deliberada impede que o cidadão compreenda os fatos sobre os quais precisa decidir. A desinformação eleitoral, por sua vez, pode contaminar o debate público, transformar adversários em inimigos e substituir a avaliação de propostas por acusações sem fundamento.
Isso não significa que toda denúncia seja verdadeira, que todo escândalo represente um crime comprovado ou que toda informação equivocada seja uma operação deliberada de desinformação.
Jornalismo responsável exige documentos, fontes identificáveis, contraditório e respeito à presunção de inocência. Exige também que denúncias sejam investigadas, que responsabilidades sejam individualizadas e que decisões judiciais sejam respeitadas, inclusive quando contrariarem nossas convicções.
O mesmo rigor deve valer para governantes, parlamentares, partidos, empresários, integrantes do Judiciário e representantes de qualquer corrente ideológica. A corrupção não muda de natureza conforme a cor partidária de quem a pratica; a mentira não se torna aceitável porque favorece o candidato de nossa preferência.
Quando a população aplica critérios diferentes aos seus próprios representantes e aos adversários, deixa de fiscalizar o poder e passa a protegê-lo. É assim que a indignação seletiva pode se tornar um instrumento de perpetuação política.
Uma sociedade que normaliza os escândalos, relativiza a desonestidade e compartilha informações sem verificar a origem corre o risco de enfraquecer os mecanismos que deveriam protegê-la. E, quando a confiança pública se deteriora, os efeitos ultrapassam a política: alcançam a economia, a segurança, os serviços públicos e a convivência social.
O Brasil precisa olhar para esse espelho com responsabilidade. A violência imposta por facções criminosas em comunidades, as famílias expulsas de suas casas, a precariedade de parte da população em situação de rua e a dificuldade de acesso a serviços públicos não podem ser tratadas apenas como temas de campanha. São problemas que exigem planejamento, políticas consistentes, fiscalização e resultados verificáveis.
A segurança pública precisa combinar investigação, inteligência, combate à lavagem de dinheiro, proteção das comunidades e presença permanente do Estado. A assistência social precisa oferecer caminhos concretos para quem vive em situação de vulnerabilidade. E os recursos públicos devem ser aplicados com transparência, eficiência e controle.
Nenhum partido, isoladamente, explica todos os problemas nacionais; tampouco qualquer governante pode ser dispensado de responder por suas decisões, suas omissões e os resultados de sua gestão. É por isso que o segundo turno exige mais do que entusiasmo, rejeição ou fidelidade partidária. Exige que cada eleitor examine a trajetória dos candidatos, verifique as propostas, confronte promessas com resultados, confira a origem das informações e rejeite tanto a compra de apoio quanto a manipulação da opinião pública.
A pergunta não é apenas em quem votar, mas quais critérios estamos dispostos a defender depois que o resultado das urnas for anunciado. O voto não encerra a responsabilidade do cidadão: inaugura um novo período de fiscalização.
Governantes precisam ser cobrados, denúncias precisam ser apuradas e políticas públicas precisam ser avaliadas por seus efeitos reais sobre a população. A democracia não se fortalece com a blindagem de aliados, com a disseminação de mentiras ou com a transformação de políticos em figuras acima de qualquer crítica. Fortalece-se quando ninguém está acima da lei e quando o interesse público prevalece sobre os projetos particulares de poder.
Diante do espelho das nações, o Brasil precisa decidir se deseja continuar reproduzindo práticas que fragilizam as instituições ou construir uma cultura política baseada em responsabilidade, transparência e compromisso com o cidadão.
Afinal, quando o eleitor fecha os olhos para a corrupção de quem apoia, aceita a mentira que confirma suas preferências e entrega seu voto sem examinar as consequências, não está apenas escolhendo um representante: está ajudando a definir os limites do poder que esse representante exercerá.
No segundo turno, o eleitor terá diante de si dois projetos e uma responsabilidade que não termina na cabine de votação. A pergunta decisiva é: depois de depositar o voto, estará disposto a cobrar do vencedor a mesma honestidade, a mesma transparência e o mesmo compromisso que exige de seus adversários?























