Por Mário Plaka (*)
Vamos parar de fingir que não existe uma questão grave diante dos nossos olhos.
Enquanto candidatos disputavam o debate presidencial da Band, Lula aparecia em outra emissora, em uma entrevista gravada dentro do Palácio da Alvorada. Lula não era apenas o presidente da República. Era — e é — candidato à reeleição.
Uma coisa é entrevistar o presidente. Outra é colocar o candidato à reeleição diante das câmeras, dentro de uma residência oficial, justamente quando seus adversários disputam a atenção do eleitor em um debate.
E aqui está a pergunta que não pode ser silenciada: se o Alvorada não podia ser utilizado eleitoralmente por Bolsonaro, por que pode agora por Lula? Em 2022, o TSE proibiu Bolsonaro de realizar lives de caráter eleitoral no Planalto e no Alvorada, entendendo que bens e serviços públicos não poderiam ser utilizados para favorecer sua candidatura. Essa questão esteve entre os elementos discutidos no processo que resultou em sua inelegibilidade.
Então, o que mudou? Mudou a lei? Mudou a jurisprudência? Mudou o entendimento do TSE? Ou mudou apenas o nome do presidente?
E o problema dos dois pesos e duas medidas não termina aí.
Quando Lula esteve preso, as condições de visita e comunicação foram amplamente diferentes daquelas que Bolsonaro enfrenta hoje. Lula recebeu aliados e autoridades e chegou a manter uma estrutura de trabalho para atender pessoas durante o período de prisão. Agora, Bolsonaro enfrenta restrições severíssimas, inclusive relacionadas ao contato com familiares.
Enquanto isso, o brasileiro assistiu a presos beneficiados por saídas temporárias previstas em lei, inclusive em períodos como o Dia dos Pais, enquanto familiares de Bolsonaro foram impedidos de encontrá-lo em determinadas circunstâncias.
Não estou dizendo que um erro justifica outro. Estou dizendo que a Justiça precisa explicar por que situações que envolvem pessoas diferentes parecem produzir tratamentos tão diferentes.
E isso não é defesa de Bolsonaro nem perseguição a Lula. É defesa da igualdade perante a lei. Porque, se Bolsonaro não podia utilizar a estrutura do Estado para comunicação eleitoral, Lula também não pode. Se Lula pode, então expliquem ao eleitor por que Bolsonaro não podia. É simples.
O que não pode acontecer é o cidadão brasileiro começar a acreditar que existem regras para uns e exceções para outros. A democracia não pode funcionar assim.
O eleitor não é cego. Ele compara. Ele lembra. Ele vê que, quando Lula estava preso, havia uma realidade; agora, com Bolsonaro submetido a severas restrições, existe outra. Vê também uma Justiça Eleitoral que precisa responder se o mesmo princípio aplicado em 2022 continua valendo em 2026.
A régua da Justiça não pode ser de borracha. Ela não pode esticar para um lado e encolher para o outro.
Se a regra vale, que valha para todos. Se não vale, que expliquem por quê. Porque eleição não é apenas escolher um candidato. É também saber se todos estão disputando sob as mesmas condições.
E, quando o eleitor começa a enxergar dois pesos e duas medidas, quem perde não é apenas um candidato. Quem perde é a confiança na própria democracia.
Por isso, a pergunta permanece: “Se não podia para Bolsonaro em 2022, por que pode para Lula em 2026?”
O eleitor brasileiro está olhando. Está comparando…
E está cobrando uma resposta.























