Por Mário Plaka (*)
O debate sobre o fim da escala 6×1 e a possível adoção de modelos como o 5×2 (ou outros formatos de redução da jornada) tem mobilizado trabalhadores, empresários, especialistas e representantes políticos em todo o país. Trata-se de uma discussão legítima e necessária; afinal, milhões de brasileiros convivem diariamente com jornadas exaustivas, pouco tempo para a família, dificuldades para cuidar da saúde e uma rotina que, muitas vezes, limita sua qualidade de vida. Defender melhores condições de trabalho é um objetivo justo e compatível com uma sociedade que busca evolução social. No entanto, acreditar que essa discussão pode ser resolvida apenas pela alteração de uma escala de trabalho é simplificar excessivamente um tema que possui impactos profundos sobre toda a economia nacional.
O trabalhador precisa de descanso, dignidade e valorização. Isso é inquestionável. Mas também é inquestionável que o emprego depende da existência de empresas capazes de sobreviver, investir e crescer. Da mesma forma, é impossível ignorar o papel do Estado, que arrecada impostos, estabelece regras, regula as relações econômicas e influencia diretamente os custos de produção no país. É justamente nesse ponto que a discussão precisa amadurecer: o debate não deveria estar restrito à relação entre empregado e empregador. Ele precisa incluir o terceiro elemento dessa equação: o governo.
Quando se fala em reduzir jornadas sem redução salarial, muitos enxergam apenas o benefício imediato para o trabalhador. Porém, é necessário avaliar quem absorverá os custos decorrentes dessa mudança, especialmente em setores que dependem de operação contínua, como comércio, supermercados, hospitais, transporte, segurança privada, indústria e diversos segmentos de serviços. Em muitos casos, para manter o nível de funcionamento, será necessário contratar mais pessoal, reorganizar escalas ou ampliar gastos operacionais. Isso não significa que a mudança seja inviável, mas que ela possui consequências econômicas que não podem ser ignoradas.
A questão central não é ser contra ou a favor de mais dias de descanso. A questão central é compreender quem pagará a conta dessa transição.
Será o empresário, reduzindo sua margem de lucro? Será o consumidor, por meio do aumento dos preços de produtos e serviços? Será o governo, reduzindo impostos e criando mecanismos de compensação? Ou será possível alcançar ganhos de produtividade capazes de equilibrar essa equação? Essas perguntas precisam ser respondidas antes que decisões estruturais sejam tomadas.
Outro aspecto que merece atenção é a ampliação dos mecanismos de negociação direta entre empregadores e empregados. Embora essa modalidade possa trazer flexibilidade em determinadas situações, também levanta questionamentos sobre o equilíbrio real de forças entre quem oferece o emprego e quem depende dele para sustentar sua família. Em um cenário de aumento dos custos operacionais, existe o receio de que futuras negociações acabem pressionando salários, benefícios ou condições de contratação, ainda que de forma indireta. O debate, portanto, não se limita ao que a lei determina no papel, mas também aos efeitos que ela pode produzir na prática ao longo dos anos.
Também é preciso refletir sobre a realidade brasileira. O país convive há décadas com elevada carga tributária, burocracia complexa, insegurança jurídica, custos financeiros elevados e baixa produtividade em diversos setores. Nesse ambiente, qualquer mudança estrutural nas relações de trabalho deveria vir acompanhada de medidas que fortaleçam a competitividade das empresas e estimulem a geração de empregos. Não parece razoável exigir mais de quem produz, emprega e investe sem discutir, simultaneamente, o peso que o próprio Estado exerce sobre a atividade econômica.
A busca por melhores condições de trabalho é necessária e merece apoio. Mas ela não pode ser construída ignorando os impactos sobre o emprego, o custo de vida e a capacidade das empresas de continuarem gerando oportunidades. Da mesma forma, a defesa da atividade empresarial não pode servir de justificativa para manter trabalhadores submetidos a jornadas que comprometam sua saúde, seu convívio familiar e sua qualidade de vida. O desafio está, justamente, em encontrar o ponto de equilíbrio entre essas duas necessidades.
O Brasil precisa superar a falsa escolha entre trabalhador e empresário. Uma nação forte depende dos dois. O trabalhador produz riqueza, movimenta a economia e sustenta sua família através do próprio esforço. O empresário assume riscos, investe capital, gera empregos e impulsiona o desenvolvimento. O governo, por sua vez, tem a obrigação de criar um ambiente que favoreça ambos, reduzindo obstáculos e promovendo condições para que a economia cresça de forma sustentável.
Por isso, a discussão sobre a jornada de trabalho não pode ser conduzida apenas pela emoção, pela pressão política ou por discursos de ocasião. Ela precisa ser enfrentada com responsabilidade, transparência e visão de longo prazo. O verdadeiro avanço não será alcançado quando um dos lados vencer o debate; ele acontecerá quando trabalhador, empresário e governo encontrarem uma solução capaz de gerar mais qualidade de vida, mais produtividade, mais empregos e mais desenvolvimento para o Brasil.
(*) Mário Plaka é sócio-fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados (Ajoia Brasil)























