Por Mário Plaka (*)
A política, às vezes, tem um senso de humor que nem o sistema consegue controlar. Há momentos em que a política parece uma comédia escrita por quem acredita demais na própria inteligência.
Tiraram Bolsonaro da disputa presidencial, e muita gente parece ter imaginado que, retirando o personagem principal do palco, a peça chegaria ao fim. Só esqueceram de uma coisa elementar: eleitor não é figurante, política não é propriedade de tribunal e sobrenome não desaparece porque alguém decidiu tirá-lo da urna.
Bolsonaro foi declarado inelegível pelo TSE por oito anos, contados a partir das eleições de 2022. O raciocínio político de seus adversários pode ser discutido, criticado ou defendido. Mas existe uma consequência que merece atenção: o homem saiu da disputa, mas o fenômeno político não saiu junto.
E aí vem uma das ironias desta eleição: o bolsonarismo não precisou estar dentro de um único partido para aparecer nas urnas. Onde apareceu um candidato assumidamente bolsonarista, a identificação política com Bolsonaro passou a ser, por si só, uma marca eleitoral. Não importa apenas a legenda na camisa; importa aquilo que o eleitor identifica por trás dela.
O resultado eleitoral de 2026 colocou isso diante dos olhos de todo mundo. O nome Bolsonaro continua no centro da disputa nacional, e a presença de candidatos identificados com essa corrente política se espalhou por diferentes espaços.
É como tentar arrancar uma árvore pela raiz e descobrir, depois, que alguém esqueceu de olhar para as sementes.
E aqui aparece outra ironia que merece ser colocada na mesa, sem maquiagem e sem anestesia. Se Bolsonaro estivesse hoje exercendo a Presidência da República, a Constituição imporia, em regra, a chamada inelegibilidade reflexa ao cônjuge e aos parentes até segundo grau dentro da circunscrição nacional. Ou seja: o próprio cargo presidencial poderia restringir a candidatura de vários integrantes da família.
Mas Bolsonaro não está na Presidência. E é justamente aí que a história ganha aquele gosto de café sem açúcar.
Tiraram o pai da disputa e deixaram a porta aberta para a família entrar em campo.
E não foi apenas a família. A própria identidade bolsonarista virou uma espécie de CPF político: muda o partido, muda o cargo, muda o estado, mas, quando o eleitor reconhece a identificação, a marca continua ali.
É claro que ninguém pode afirmar, sem provas, que esse foi o objetivo de quem tomou ou defendeu determinadas decisões. Mas a consequência política pode ser observada sem lupa: aquilo que alguns imaginavam ser uma maneira de reduzir uma força política acabou produzindo uma situação em que o sobrenome continuou circulando, multiplicando candidaturas e ocupando espaços. É quase como tentar apagar um incêndio jogando gasolina e depois perguntar quem acendeu o fósforo.
E tem mais: o próprio Lula chegou a afirmar que Bolsonaro não teria chance de disputar a eleição. Pois bem. A política tem dessas coisas. Às vezes, quem acredita que já escreveu o final descobre que o eleitor ainda não recebeu o roteiro.
Não estou dizendo que existe uma conspiração secreta, nem que decisões judiciais foram tomadas com o propósito de produzir esse resultado. Isso precisaria ser provado. Estou falando de algo muito mais simples: estratégias políticas têm consequências, e nem sempre a consequência obedece ao estrategista.
O eleitor pode ser convencido, pressionado, informado, desinformado, provocado. Mas não pode ser tratado eternamente como massa de manobra. Ele observa. Compara. Guarda. E, principalmente, vota.
Talvez essa seja a maior ironia de todas: tentaram resolver Bolsonaro tirando Bolsonaro da eleição e descobriram que Bolsonaro poderia continuar sendo uma força política mesmo fora da urna.
É o famoso feitiço. Só que, desta vez, parece que o endereço da entrega estava errado.
O feitiço saiu contra os feiticeiros.
E fica a pergunta para quem gosta de fazer política acreditando que pode controlar tudo: será que alguém calculou o efeito colateral de tirar o principal nome de cena e, com isso, transformar o sobrenome, a família e a própria identificação bolsonarista em múltiplos pontos de presença eleitoral?
Porque a política tem uma regra que nenhum tribunal, partido, governo ou sistema deveria esquecer: você pode impedir uma candidatura, mas não pode, por decisão administrativa ou judicial, determinar o que milhões de brasileiros vão pensar, defender ou votar.
No fim, a conta chega.
E, quando chega, não adianta reclamar do garçom.























