Por Mário Plaka (*)
O brasileiro está se acostumando a ser passado para trás. Sempre. Na política, na religião e também no esporte — especialmente no futebol, que se vende como paixão nacional, mas funciona, muitas vezes, como uma indústria da enganação.
Ano após ano, rodada após rodada, o roteiro se repete. Estádios cheios, ingressos caros, alimentação dentro do estádio com preços que rivalizam — e às vezes superam — os de aeroportos. O torcedor paga tudo: ingresso, transporte, comida, camisa, emoção. Em troca, recebe apresentações vergonhosas.
Quando olhamos as cifras que giram no futebol brasileiro, a pergunta é inevitável: como pode? Jogadores que, em um único mês, ganham mais de mil vezes o salário do trabalhador que paga para estar ali na arquibancada. E não estamos falando de gênios da bola. Na maioria das vezes, estamos falando de jogadores medianos — quando não medíocres.
Boa parte dos elencos dos grandes clubes brasileiros não se explica pelo mérito esportivo, mas pelo lobby. Pelo empresário. Pelo esquema. O jogador não joga nada, faz uma ou duas partidas razoáveis, desaparece em campo e continua recebendo salários milionários. Dinheiro que vem, sim, do bolso do torcedor e, muitas vezes, também dos cofres públicos — direta ou indiretamente.
E quando a atuação é desastrosa, vem o discurso pronto: “foi mal”, “pedimos desculpas”, “vamos melhorar”, “o torcedor não merece esse apagão”. Desculpa não paga ingresso. Desculpa não devolve tempo. Desculpa não justifica salário milionário.
No início da temporada, a ladainha muda, mas a lógica é a mesma: “é começo de trabalho”, “falta entrosamento”, “é fase de ajuste”. Isso não existe no mundo real. No chão da fábrica, na usina, no serviço público ou em qualquer atividade séria, trabalho malfeito não é normalizado — é cobrado.
Trabalhei em usina, em fábrica, coordenei equipes, inclusive no serviço público. Ninguém voltava de férias errando tudo e achando aceitável. Ninguém entregava trabalho malfeito e dizia: “semana que vem melhora”. Profissionalismo não é favor. É obrigação.
Por isso, quando vemos contratos de 100, 200 milhões, salários de dezenas de milhões por mês para jogadores que não entregam absolutamente nada em campo, a desconfiança é legítima. De onde sai tanto dinheiro? Como se justificam cifras bilionárias em elencos que jogam um futebol pobre, desorganizado e sem alma? Ou há algo muito errado aí, ou há muito medo de investigar e falar.
E aqui está o ponto central: por que falar de futebol e política juntos?
Porque a política está em tudo. Está no pãozinho da padaria, na varrição da rua, no chão da fábrica, no serviço público e, claro, também no futebol. Fingir que o futebol é apenas entretenimento é uma forma conveniente de esconder interesses, cifras obscuras e falta de transparência.
Se o Brasil quiser, de fato, se levar a sério como nação, precisa se passar a limpo. E isso passa, necessariamente, pelo Congresso Nacional. É urgente uma CPI séria, independente e sem blindagens para investigar as cifras bilionárias que circulam no futebol brasileiro: donos de clubes, dirigentes, empresários e jogadores. De onde sai esse dinheiro? Como esses contratos são justificados? Qual é o retorno real para o esporte, para o torcedor e para a sociedade?
Porque uma coisa é certa: bola eles não estão jogando. O espetáculo não condiz com o dinheiro que circula. E quando isso acontece, não é paixão — é engano institucionalizado.
O brasileiro não pode continuar sendo tratado como otário em todas as áreas da vida. Nem na política. Nem no futebol.
Acorda, Brasil.























