Por Mário Plaka (*)
Estou me contorcendo para não falar. Mas há momentos em que o silêncio vira cumplicidade. E eu não nasci para ser cúmplice do que considero distorção.
Antes de qualquer coisa, deixo claro: o que escrevo não é ponto final. É ponto de debate. Se eu estiver errado, que me provem. Não tenho compromisso com o erro — tenho compromisso com aquilo que vejo e com aquilo que penso. E até que me provem o contrário, continuarei falando.
Estamos assistindo a uma discussão nacional envolvendo um desfile de escola de samba que homenageia o atual presidente da República. Parlamentares discutem segurança jurídica, falam em promoção antecipada, outros defendem liberdade artística. O debate chegou ao Supremo Tribunal Federal, onde há vozes defendendo cautela e outras sustentando que não se pode exercer censura prévia.
Muito bem. Mas onde estava essa cautela quando a produtora Brasil Paralelo tentou lançar um documentário sobre a facada sofrida por Jair Bolsonaro? Ali, o argumento era de que poderia influenciar o processo eleitoral. Agora, o argumento é que não se pode impedir antes de ver o conteúdo final.
Percebem a diferença de peso e medida?
Não estou afirmando que há crime. Trabalho com hipóteses, como qualquer cidadão que observa o cenário político. Se houver crime e houver punição severa, dirão que é perseguição. Se houver apenas multa ou nada acontecer, dirão que é democracia cultural. A narrativa já está pronta antes mesmo da decisão.
Esse é o problema: a confiança institucional está tão desgastada que qualquer decisão será lida como política.
E não é só o Judiciário. O Legislativo se posiciona conforme conveniência. O Executivo atua com a máquina na mão. E a imprensa, especialmente conglomerados como o Grupo Globo, escolhe o tom, o recorte, o destaque — e isso molda percepções. Não é preciso inventar uma mentira para conduzir uma narrativa. Basta selecionar o que amplificar e o que silenciar.
Mas há algo mais profundo nisso tudo.
Quando um desfile coloca um “palhaço” com gestos que remetem a um ex-presidente militar da reserva, quando se brinca com símbolos, quando se provoca diretamente o campo conservador, não é apenas arte inocente. É comunicação simbólica. É mensagem nas entrelinhas. É disputa cultural.
E disputa cultural não é brincadeira. Ela molda mentalidade.
Eu conheço essa dinâmica. Conheço de dentro para fora. Já fiz parte de grupos que operam nessa lógica de ocupação cultural e simbólica. Sei como se organiza narrativa. Sei como se constrói hegemonia. Sei como se usa o humor, a arte e o deboche como instrumentos políticos.
A esquerda ousa. Não tem medo de ocupar espaço. Não tem medo de provocar. Não tem medo da consequência. E isso é estratégia.
Enquanto isso, muitos conservadores reagem apenas depois que o palco já está montado.
O Brasil não precisa de censura. Precisa de coerência. Precisa de igualdade de critério. Precisa que a lei seja aplicada com a mesma régua para todos.
E precisa, principalmente, que o eleitor acorde.
Estamos em ano eleitoral. Não é tempo de ser isentão. Não é tempo de vender voto. Não é tempo de trocar consciência por favor político. A transformação começa na base: na cidade, no bairro, na região.
Eu falo do Vale do Aço porque é onde piso. Quantos deputados eleitos com voto daqui realmente trabalharam pela base estrutural da região? Quantos só usaram a cidade como trampolim para voos maiores?
O Estado não fala. Quem fala são pessoas. O Estado é um CNPJ comandado por CPFs. São homens e mulheres que sentam na cadeira, pegam a caneta e decidem. E quem sustenta tudo isso é o povo — inclusive o camarote onde muitos assistem ao espetáculo político enquanto a economia aperta.
O Brasil precisa ser passado a limpo. Não com ódio. Não com revanche. Mas com lucidez.
Precisamos aprender a enxergar além da letra do samba. Além da manchete. Além do discurso inflamado.
Não é só samba. É disputa de narrativa.
E quem não entende a disputa, perde o futuro antes mesmo de entrar no jogo.























