Por Mário Plaka (*)
Do incêndio no Amazonas à emergência na porta de casa: quando o poder público demora, o prejuízo pode ser irreversível. Governantes, parlamentares e o próximo presidente precisam entender que, no socorro, tempo é vida.
O episódio das queimadas no Amazonas expõe uma questão que vai muito além de Lula ou de qualquer governo: por que o atendimento emergencial não acontece com a urgência que a situação exige? No caso específico, houve uma solicitação de apoio, uma resposta inicial que não contemplou o pedido de aeronaves e, depois da repercussão pública, o anúncio de reforço federal.
O governo apresentou suas justificativas, mas permanece a pergunta: por que a resposta necessária não chegou antes? Quem acompanha o cotidiano das comunidades conhece esse roteiro: pede-se uma ambulância, uma viatura policial, o Corpo de Bombeiros ou apoio para combater um incêndio; a resposta é que faltam equipamentos, pessoal ou disponibilidade. Às vezes, a solução só aparece depois de muita insistência, denúncia e pressão pública.
Falo também pela experiência de brigadista voluntário. Sei que, diante do fogo, algumas horas podem separar um foco controlável de uma área devastada. No Amazonas, como em qualquer emergência, tempo não é burocracia: é território, patrimônio, saúde e vida.
E não basta cobrar rapidez dos agentes que estão na ponta. É preciso cobrar planejamento dos governos federal, estaduais e municipais, estrutura operacional, equipes suficientes, equipamentos disponíveis e protocolos que funcionem antes da crise.
Em janeiro de 2026, a Folha noticiou uma redução de 17% no orçamento federal destinado à prevenção de incêndios e à fiscalização ambiental: de R$ 596,9 milhões, em 2025, para R$ 495,8 milhões, em 2026. Esse dado exige explicações e fiscalização. Orçamento, prioridades e capacidade de resposta precisam ser discutidos com transparência.
Deputados e senadores têm a obrigação de fiscalizar, aprovar recursos e acompanhar sua execução. Governadores e prefeitos precisam preparar suas estruturas. O próximo presidente da República deve compreender que prevenção e socorro não podem depender de improviso nem de manchetes. Um gabinete de crise permanente, com planejamento periódico, integração entre órgãos e alternativas para quando faltarem recursos, não é luxo: é responsabilidade pública.
O dinheiro do contribuinte precisa aparecer em serviços, equipamentos e respostas concretas. A sociedade tem o direito de questionar prioridades, cobrar explicações sobre despesas públicas e exigir que áreas estratégicas de emergência não sejam tratadas como assunto secundário. Não se trata de presumir que todo atraso seja deliberado, nem de acusar sem provas. Trata-se de exigir que cada negativa tenha justificativa verificável, que cada demora seja investigada e que exista um plano alternativo quando o primeiro atendimento não puder ocorrer.
O socorro não pode depender de viralizar nas redes sociais, virar notícia ou constranger uma autoridade. A emergência já é urgente antes de virar manchete. Aos governantes que chegam, aos parlamentares e ao próximo presidente fica o recado: o Brasil precisa de uma cultura de prevenção, prontidão e responsabilidade. A mudança que o país espera também começa por aí. Porque, quando o poder público demora, a conta não fica no gabinete: quem paga é o povo.
Onde estão os artistas e ambientalistas, “defensores do Amazonas”?
(*) O analista político e cronista Mário Plaka é sócio fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes (AJOIA Brasil)























