Por Mário Plaka (*)
Costumo dizer que sou um provocador. Provoco porque penso, e penso porque me deixo provocar. Uma palavra fora do meu vocabulário já me leva à pesquisa; um fato cotidiano já me leva à reflexão. Não é provocação para o confronto vazio, mas para o debate responsável, para o despertar da consciência no cotidiano de cada um de nós.
Basta acompanhar as notícias diárias — nos blogs, na televisão, nos jornais — para perceber que algo está profundamente errado. Violência por todos os lados. Jovens agredindo pessoas, mulheres sendo brutalizadas, animais sendo atacados e vidas tratadas como descartáveis. O caso mais recente, envolvendo três menores que agrediram até a morte um cão comunitário, é apenas mais um entre tantos episódios que revelam uma crise moral grave.
Insistem em chamá-los apenas de “adolescentes”. Não. São adolescentes, sim, mas são também criminosos, porque praticaram um crime. A idade não anula a responsabilidade moral do ato. E o problema não é apenas o crime contra um animal — embora isso por si só já seja alarmante —, mas o que ele simboliza: a banalização da violência.
Em muitas ruas do Brasil existem cães comunitários. Animais abandonados, deixados para trás quando seus tutores se mudam, e que passam a sobreviver graças à solidariedade dos vizinhos. Na minha própria casa, adotei cães abandonados, e outros tantos se alimentam e se hidratam no meu portão. Isso acontece em inúmeros bairros, onde a população compreende que cuidar também é um dever coletivo. Mas aqui o foco não é a proteção animal em si. O foco é a agressão. A agressão como prática normalizada.
Agressão ao animal. Agressão à mulher. Agressão entre jovens. Agressão dentro de casa. Mulheres assassinadas, pessoas humilhadas, famílias destruídas. E a pergunta que precisa ser feita, com coragem, é direta: de onde vem tudo isso?
O que esses jovens viram dentro de casa? Que exemplos receberam? Que tipo de diálogo existiu entre pais e filhos? Quem os educou: os pais ou a chamada “babá eletrônica”? Que filmes assistiram, que palavras ouviram, que comportamentos presenciaram?
Quantas vezes você, pai, sentou à mesa para conversar seriamente com seu filho? Quantas vezes você demonstrou, com atitudes, respeito às pessoas, à mãe dos seus filhos, aos funcionários, aos desconhecidos? Quantas vezes seu filho viu você agir com educação no trânsito, com empatia no dia a dia, com responsabilidade como cidadão?
E você, mãe? Em que medida o cuidado com a própria aparência, com a rotina pessoal, ocupou o espaço do cuidado emocional e formativo dos seus filhos? Quantas vezes você rezou com eles, ensinou valores, transmitiu princípios não apenas com palavras, mas com ações?
Os filhos são, sim, reflexo dos pais. O fruto não cai longe da árvore. Não há como negar essa realidade. É fácil culpar o Estado, o governo, o sistema. Mas onde estava o planejamento familiar? Como foi o namoro, o noivado, o casamento? Ou tudo aconteceu sem reflexão, sem responsabilidade, sem compromisso real?
Quantas famílias foram formadas sem diálogo, sem estrutura emocional, sem presença? Quantos filhos cresceram vendo o pai ausente, emocionalmente distante, mais presente em bares, jogos ou outros ambientes do que dentro de casa? Quantas mães foram tratadas como objetos, troféus ou depósitos de frustrações?
Este é um discurso duro. E precisa ser. Porque enquanto não encararmos a responsabilidade parental com seriedade, continuaremos enxugando gelo. Pais e mães são, sim, corresponsáveis pela formação moral dos filhos. A sociedade sofre as consequências daquilo que é negligenciado dentro de casa.
Não se trata de moralismo barato, mas de responsabilidade. Criar um filho vai muito além de prover alimento, escola e abrigo. É presença, exemplo, valores, limites e amor praticado no cotidiano.
A violência que hoje nos choca não surgiu do nada. Ela foi aprendida, tolerada, normalizada. E enquanto não tivermos coragem de olhar para dentro de casa, continuaremos perguntando, perplexos, como chegamos até aqui.
A pergunta permanece: onde você estava enquanto seu filho aprendia quem ele seria?























