Por Mário Plaka (*)
Hoje, eu estou assustado com o formato que a saúde vem tomando. E digo isso como uma pessoa comum, como leitor, como alguém que lê muito, observa muito e escreve aquilo que pensa.
Não estou dizendo que diabetes não existe. Não estou dizendo que obesidade não precisa de tratamento. Não estou dizendo que alimentação saudável, atividade física, exames preventivos ou acompanhamento médico não sejam importantes. Muito pelo contrário. O que me incomoda é outra coisa: quando a prevenção começa a ser apresentada ao cidadão como se já fosse uma doença instalada.
O termo “pré-diabético” existe e tem critérios clínicos. Mas será que todo resultado alterado, toda consulta rápida ou todo exame isolado deveria ser suficiente para colocar uma etiqueta na testa de alguém?
Uma pessoa entra no consultório para investigar alguma coisa e sai ouvindo: “Você é pré-diabético”. Pronto. A partir daquele momento, ela começa a se enxergar como doente. A família começa a se preocupar. A alimentação muda de maneira abrupta. Surge a culpa. Surge o medo. Surge a ansiedade.
E muitas vezes ninguém explica que existe uma diferença enorme entre um sinal de alerta e uma sentença sobre o futuro. Prevenção deveria significar acompanhamento, confirmação, avaliação do conjunto de exames, histórico familiar, hábitos de vida, peso, idade, condições clínicas e evolução ao longo do tempo. Não deveria significar simplesmente colocar um rótulo e mandar a pessoa para casa com uma lista de proibições.
E aí entramos em outro problema: a alimentação. Há profissionais excelentes na área da nutrição, assim como há excelentes profissionais em todas as áreas da saúde. Mas existe uma comunicação que precisa ser revista: “Corta isso. Não pode aquilo. Não coma isso. Não beba aquilo. Tem que eliminar tudo. Tem que fazer isso imediatamente.”
E o paciente olha para o prato e pensa: “Então morre de uma vez, porque não posso mais nada.”
Será que saúde é isso? Mudança de hábitos precisa ser sustentável. Para muitas pessoas, uma transformação gradual, acompanhada e individualizada pode ser muito mais viável do que uma ruptura radical. O paciente não é uma máquina que recebe uma programação nova de um dia para o outro.
Existe corpo. Existe metabolismo. Existe rotina. Existe condição financeira. Existe cultura alimentar. Existe família. Existe emoção. Existe ansiedade. Existe uma vida inteira por trás daquele prato.
E quando a pessoa não consegue cumprir uma dieta impossível, ainda pode carregar a culpa de ter “fracassado”. Isso também adoece.
E chegamos às famosas “canetinhas”. Medicamentos como a tirzepatida não são brinquedos, não são cosméticos e não deveriam circular como se fossem simplesmente mais um produto para perder alguns quilos antes do verão. Existe indicação médica, existem contraindicações, efeitos adversos, acompanhamento e necessidade de avaliação individual.
O absurdo começa quando alguém diz: “Eu tomei e emagreci.”
O amigo responde: “Então eu também vou tomar.”
O marido compra. A esposa usa. O colega empresta. Alguém consegue uma receita. Outro compra por fora.
E assim um medicamento que deveria estar dentro de um tratamento médico passa a circular na lógica do “funcionou comigo, vai funcionar com você”.
Não. Cada organismo é um organismo. Cada histórico clínico é um histórico. Cada medicamento tem riscos. E ninguém deveria começar um tratamento porque ouviu dizer que outra pessoa emagreceu.
A estética também está criando uma perigosa urgência pelo corpo de hoje, sem que ninguém pergunte suficientemente: “E o amanhã? O que acontece depois? O que acontece quando o medicamento é interrompido?
Como fica a alimentação? Como fica a relação da pessoa com o próprio corpo? Como fica a saúde metabólica? Como ficam os aspectos psicológicos? Como será a manutenção daquele resultado? Porque emagrecer não deveria ser apenas diminuir o número da balança.
Saúde não é uma fotografia. É uma história.
E aqui eu faço uma comparação com outro momento que marcou profundamente a sociedade: a pandemia de COVID-19.
Não estou comparando diabetes, obesidade ou medicamentos com o vírus. Estou falando de uma questão de comportamento e comunicação. Quando uma pessoa recebe uma informação médica em tom de sentença, o medo pode tomar conta. Durante a pandemia, muitas pessoas viveram momentos de enorme apreensão. Um diagnóstico podia provocar desespero no paciente e na família inteira.
Por isso, comunicação em saúde também é responsabilidade. O profissional precisa informar sem esconder a realidade, mas também sem transformar risco em pânico. O cidadão precisa ser orientado, não aterrorizado.
E talvez seja aqui que esteja a grande pergunta deste artigo: “Estamos realmente prevenindo doenças ou estamos criando uma sociedade cada vez mais acostumada a viver sob o medo de possíveis doenças?”
Porque, se formos levar a expressão ao pé da letra, todos nós somos “pré” alguma coisa. Somos pré-doentes de alguma coisa que talvez nunca aconteça? Somos pré-obesos? Pré-hipertensos? Pré-diabéticos? Pré-cardiopatas? Pré-isso? Pré-aquilo?
Até onde vai a prevenção e onde começa o excesso de diagnóstico?
Essa pergunta não é contra a medicina. É justamente a favor de uma medicina mais cuidadosa, mais humana e mais responsável.
Prevenir é cuidar antes que a doença chegue. Mas prevenir também é saber diferenciar risco de doença, alerta de diagnóstico, tratamento de modismo e orientação de terrorismo psicológico.
O paciente não precisa sair do consultório carregando uma sentença. Precisa sair carregando informação.
Precisa saber o que realmente tem, o que precisa investigar, o que pode mudar e quais profissionais devem acompanhá-lo.
Médico, nutricionista, psicólogo, educador físico e outros profissionais podem fazer parte de uma equipe de cuidado — cada um dentro de sua competência.
Porque saúde não é uma guerra contra o prato, contra a balança ou contra o próprio corpo. Saúde é equilíbrio.
E quando a prevenção vira medo, quando a dieta vira punição e quando o medicamento vira moda, alguma coisa está errada.
Eu sou apenas uma pessoa comum. Leio muito. Observo muito. Escrevo aquilo que penso.
E deixo uma pergunta para quem entende do assunto:
Estamos ensinando as pessoas a cuidar da saúde ou estamos ensinando as pessoas a ter medo de adoecer?
Responda quem puder.























