Por Mário Plaka (*)
Não basta ter hospitais, UPAs, SAMU e equipes de emergência. É preciso que a população saiba, antes de a emergência acontecer, quem está preparado para receber cada tipo de caso, para onde o paciente deve ser encaminhado e qual é o caminho correto entre o socorro, a estabilização e o tratamento especializado.
Foi justamente essa pergunta que me veio à cabeça quando tomei conhecimento do acidente ocorrido dentro da Aperam South America, em Timóteo. e soube que a vítima havia sido encaminhada para atendimento no sistema hospitalar da Unimed. Minha primeira reação foi levantar uma dúvida: aquele hospital possui estrutura e equipe especializada para receber imediatamente uma vítima com queimaduras de extrema gravidade?
Estou falando de mim. É uma dúvida minha. E levantar essa dúvida não significa afirmar que o hospital não tenha capacidade para atender. Significa reconhecer algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais sério: a população não deveria precisar ter essa dúvida depois que a tragédia acontece. Essa informação deveria estar disponível antes.
Em uma situação de alta complexidade, especialmente diante de grandes queimaduras, acidentes elétricos, traumas graves, intoxicações, acidentes químicos, AVC, infarto ou outras emergências que exigem atendimento especializado, não basta dizer que determinada unidade possui pronto atendimento, UTI ou médicos de plantão.
É preciso saber qual é o nível de complexidade daquela unidade, quais especialistas estão disponíveis, quais procedimentos podem ser realizados, quais equipamentos existem, quais casos devem ser estabilizados ali e, principalmente, para onde o paciente deve ser encaminhado quando aquela unidade não for o destino definitivo.
Isso não é uma informação exclusiva para médicos. Não é informação exclusiva para o SAMU. Não é informação exclusiva para os bombeiros. É informação de interesse público.
O cidadão que presencia um acidente precisa saber como agir. A família precisa saber para onde recorrer. O trabalhador precisa saber qual é a referência diante de um acidente dentro de uma empresa. O empresário precisa conhecer o fluxo de emergência. As escolas, igrejas, clubes, associações, empresas e instituições públicas também deveriam ter acesso a essas informações.
Porque, no momento do desespero, ninguém deveria precisar descobrir como funciona a rede de saúde.
E aqui está uma responsabilidade que não pode ser empurrada de um lado para o outro. Secretarias Municipais de Saúde, Secretaria de Estado de Saúde, Conselhos Municipais de Saúde, gestores hospitalares, UPAs, hospitais, SAMU e demais serviços de urgência precisam conversar entre si e, principalmente, conversar com a população.
É necessário que, periodicamente, sejam divulgadas informações claras sobre a rede existente: quais unidades atendem urgência e emergência que possuem UTI; quais são referências para determinadas especialidades que recebem pacientes queimados; quais são os centros de referência para grandes queimaduras; quais serviços realizam estabilização e quais são os fluxos de transferência.
Não estamos falando de propaganda institucional. Estamos falando de educação em saúde e de segurança da população.
O Vale do Aço possui uma rede hospitalar importante. Temos hospitais públicos e privados, unidades de pronto atendimento, equipes do SAMU, Corpo de Bombeiros e profissionais que trabalham diariamente para salvar vidas.
Mas uma rede de saúde eficiente não é apenas aquela que possui bons equipamentos e bons profissionais. É também aquela que sabe informar à população como essa rede funciona.
Porque pode existir uma excelente estrutura a poucos quilômetros de distância e, ainda assim, uma pessoa perder tempo precioso simplesmente porque ninguém sabia dizer para onde ela deveria ser encaminhada.
E tempo, em determinadas emergências, não é detalhe. Tempo é tratamento. Tempo é prognóstico. Tempo pode ser vida.
Por isso, este artigo não acusa o Hospital Unimed, o Hospital Márcio Cunha, o Hospital José Maria Morais ou qualquer outra unidade de saúde.
Ao contrário. A proposta é muito maior do que apontar culpados.
É pedir transparência. É pedir informação. É pedir organização. É pedir que a população conheça a própria rede de saúde.
Que os secretários municipais de Saúde expliquem. Que os prefeitos cobrem. Que os Conselhos Municipais de Saúde debatam. Que os hospitais informem. Que as unidades de pronto atendimento orientem. Que o Estado divulgue seus fluxos de referência e contrarreferência.
E que essas informações não apareçam somente depois de uma tragédia. Precisamos saber hoje o que fazer amanhã.
Porque ninguém escolhe a hora de sofrer um acidente. Mas podemos escolher estar preparados para quando ele acontecer. Saúde pública também é informação pública.
E, quando uma vida está por um fio, não podemos permitir que a falta de informação seja mais um obstáculo entre o paciente e o atendimento de que ele precisa.
(*) O cronista Mário Plaka é sócio-fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados (Ajoia Brasil)























