Por Mário Plaka (*)
O debate sobre os 32% de etanol na gasolina mostra que a sociedade não pode aceitar mudanças que afetam milhões de consumidores sem transparência, estudos específicos e segurança comprovada. É realmente seguro aumentar de 30% para 32% o percentual de etanol misturado à gasolina?
Não fomos os únicos a questionar. Em todo o país, consumidores, especialistas, entidades e outros grupos também levantaram dúvidas e fizeram circular informações sobre os possíveis impactos dessa mudança. Mas nós fizemos a nossa parte.
Questionamos. Alertamos. Produzimos conteúdo. E ajudamos a levar o debate para as redes sociais. WhatsApp, Instagram, X, Facebook e outras plataformas deram ao cidadão comum uma ferramenta poderosa: a capacidade de informar, questionar e mobilizar. Porque hoje a informação não depende mais exclusivamente da televisão aberta.
E agora esse debate ganhou uma nova dimensão.
O Ministério Público Federal foi à Justiça para questionar o aumento da mistura de etanol de 30% para 32%, argumentando que os estudos apresentados não seriam específicos para comprovar, de maneira conclusiva, a segurança da adoção permanente do E32. A discussão envolve justamente aquilo que nós já defendíamos: antes de impor uma mudança que atinge milhões de motoristas, é preciso comprovar tecnicamente sua segurança e seus efeitos reais.
A pergunta é simples: se a mudança é segura, onde estão os estudos específicos e conclusivos que comprovam isso? O governo afirma que a mistura pode trazer benefícios econômicos, reduzir a necessidade de importação de gasolina e gerar economia ao consumidor. A estimativa divulgada pelo Ministério de Minas e Energia é de uma redução de aproximadamente R$ 0,03 por litro na bomba.
Mas o consumidor também tem o direito de perguntar: essa economia realmente chegará ao bolso do motorista?
Porque, no Brasil, o cidadão já paga caro para ter um veículo. Paga combustível. Paga IPVA. Paga licenciamento. Paga pedágio. Paga manutenção. Paga seguro. E, muitas vezes, ainda precisa enfrentar estradas em condições precárias. Por isso, qualquer mudança na composição do combustível que abastece milhões de veículos precisa ser tratada com absoluta responsabilidade, transparência e estudos técnicos específicos.
Não se trata de ser contra o etanol. Não se trata de ser contra o produtor brasileiro. Não se trata de ignorar os benefícios econômicos e ambientais que o biocombustível pode proporcionar. Trata-se de uma pergunta muito mais simples: O consumidor brasileiro está sendo devidamente informado e protegido?
O caso do E32 mostra algo ainda maior. Mostra que a sociedade civil não precisa mais esperar que os grandes veículos de comunicação decidam quais assuntos merecem atenção.
Quando cidadãos se organizam, pesquisam, questionam e compartilham informações, a discussão pode ganhar proporções nacionais. As redes sociais não substituem a Justiça, os órgãos reguladores nem os estudos científicos. Mas podem fazer algo fundamental: dar voz ao cidadão. Foi isso que procuramos fazer.
Não tivemos a pretensão de sermos os únicos. Não somos os donos da verdade. Mas tivemos a coragem de questionar uma decisão que poderia afetar milhões de brasileiros.
E continuaremos fazendo aquilo que entendemos ser nosso dever: questionar o poder, cobrar transparência e defender o direito do cidadão de saber exatamente o que está sendo decidido em seu nome.
Porque democracia não é apenas votar. Democracia também é perguntar. É fiscalizar. É questionar. É exigir estudos. É cobrar transparência. E, quando necessário, é levar a discussão até onde for preciso.
A voz do cidadão pode começar em uma postagem, que pode circular pelo WhatsApp, pode alcançar milhares de pessoas.; e pode, sim, chegar aos tribunais.
Talvez essa seja uma das maiores transformações do nosso tempo: o cidadão deixou de ser apenas espectador.
Agora ele também pode ser fiscal.
E, quando a sociedade questiona, o poder precisa responder.























