Por Mário Plaka (*)
No momento que os personagens se cruzam, as versões se contradizem e as investigações avançam, o cidadão tem o direito de perguntar. Vamos pensar um pouco. Vamos colocar nossa mente para funcionar! A política brasileira tem memória curta, mas os registros permanecem. A internet e a inteligência artificial permitem recuperar histórias antigas, comparar declarações e acompanhar relações que, muitas vezes, desaparecem do debate público. O problema é que uma parte da sociedade esquece, outra prefere não enxergar e muitos políticos apostam justamente nessa amnésia coletiva.
Voltemos a 2008, quando o então delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz comandou a Operação Satiagraha, que investigou o banqueiro Daniel Dantas. Anos depois, Protógenes passou a viver na Suíça e teve sua trajetória marcada também por uma condenação por violação de sigilo funcional.
Agora, outro nome ligado à sua história pessoal reaparece no noticiário: Roberta Luchsinger, sua ex-esposa, com quem tem uma filha, que passou a ser associada a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. São personagens reais, com trajetórias que merecem ser examinadas. Isso não prova a existência de uma conspiração, mas torna legítimo perguntar: quais são as relações documentadas, quais interesses estavam envolvidos e o que ainda precisa ser esclarecido?
Em 2017, Roberta anunciou a intenção de doar cerca de R$ 500 mil em dinheiro e bens a Lula, então atingido por bloqueios patrimoniais relacionados à Lava Jato. Em 2026, seu nome voltou ao debate público no contexto de investigações envolvendo suspeitas de tráfico de influência, possíveis relações com agentes públicos e o caso das fraudes no INSS.
Lulinha também passou a ser alvo de apurações relacionadas a suspeitas que precisam ser verificadas pelas autoridades. As defesas negam irregularidades, e investigação não é condenação. Entretanto, uma nova controvérsia ganhou força quando Lula afirmou que não conhecia Roberta e a chamou de “pilantra”. Ela contestou publicamente essa versão, afirmou que o presidente sabia de sua proximidade com o filho e anunciou a intenção de buscar uma delação premiada.
Mais grave, declarou temer pela própria vida e pela segurança das filhas. Esse é o ponto que não pode ser tratado como simples disputa entre adversários políticos. Quando alguém afirma estar com medo e pede, direta ou indiretamente, que sua situação seja levada a sério, cabe às autoridades avaliar os riscos, garantir a proteção necessária e apurar os fatos. Não se deve presumir que alguém a ameaçou sem provas, mas tampouco se pode ignorar um possível pedido de socorro por conveniência política. Se ela tem informações relevantes, que sejam examinadas pelos meios legais, com segurança e sem intimidação.
A história exige atenção também por causa das relações entre os personagens. Roberta foi casada com Protógenes, tem uma filha com ele e, posteriormente, aproximou-se de Lulinha. Lula afirma não conhecer Roberta; ela sustenta que o presidente sabia de sua circulação naquele ambiente.
Quem está dizendo a verdade? Essa resposta não deve ser decidida por torcida, mas por documentos, mensagens, registros de encontros, depoimentos e outros elementos verificáveis. A internet pode recuperar reportagens antigas; a inteligência artificial pode organizar informações e comparar versões. Nenhuma das duas, porém, transforma suspeitas em provas. O que importa é descobrir se houve favorecimento, tráfico de influência ou uso de relações políticas para atender a interesses particulares. Se nada irregular ocorreu, que os fatos demonstrem isso. Se houve irregularidades, que sejam identificadas e punidas na forma da lei.
Também é necessário separar as investigações relacionadas ao INSS daquelas que envolvem o Banco Master. Daniel Vorcaro, seus negócios e suas relações com pessoas influentes estão no centro de questionamentos que precisam ser examinados com rigor. As festas frequentadas por empresários e figuras públicas, os voos particulares, as viagens e os presentes de luxo despertam perguntas legítimas sobre quem pagou as despesas e quais interesses aproximavam os participantes. Mas aparecer numa fotografia, frequentar uma festa ou conhecer alguém não constitui, por si só, prova de crime.
Da mesma forma, não se deve afirmar uma ligação criminosa entre Lulinha, Roberta e o Banco Master sem documentos que sustentem essa conexão. Cada caso precisa ser investigado por seus próprios elementos; se houver cruzamentos comprovados, que venham a público. O que não pode existir é uma investigação rigorosa para os adversários e uma cortina de silêncio para os aliados.
É nesse cenário que o título ganha sentido: um abismo chama outro abismo. Uma versão contestada abre espaço para novas perguntas; uma investigação inconclusiva alimenta a desconfiança; uma resposta evasiva amplia a cobrança. E a esquerda, que frequentemente reivindica para si a defesa dos pobres, da justiça social e da ética, precisa aceitar o mesmo padrão de transparência que exige de seus adversários.
Não existe certificado ideológico de honestidade. Direita, esquerda e centro devem responder às mesmas perguntas. O dinheiro tem origem, as relações têm história e o poder público não pertence a grupos políticos.
Por isso, eleitor, antes de ir às urnas, pense. De onde veio tanto dinheiro para Roberta Luchsinger? Quem financiou seus negócios, quais interesses estavam envolvidos e quais documentos podem esclarecer a origem dos recursos? Não se trata de condená-la, mas de exigir transparência.
De onde veio o dinheiro para Lula, Lulinha e seu entorno político? Quais recursos são particulares, quais relações comerciais precisam ser esclarecidas e houve, em algum episódio, utilização indevida de dinheiro público? Onde estão os documentos e as explicações? A resposta não pode depender da preferência política de quem pergunta.
E, diante das controvérsias envolvendo Daniel Vorcaro, o Banco Master e seus aliados, quem pagou a conta das festas, dos voos particulares, das viagens e dos presentes de luxo? Quem eram os convidados, quais interesses os aproximavam e de onde vieram os recursos? Eram despesas particulares devidamente justificadas ou existem relações financeiras que ainda precisam ser esclarecidas? Afinal, os poderosos têm uma fábrica clandestina de dinheiro ou acreditam que podem usufruir de privilégios sem prestar contas à sociedade?
São perguntas, não sentenças. A resposta deve vir das provas, das investigações e da Justiça. Mas há algo que não pode esperar pelo encerramento de um processo: se uma mulher teme pela vida e pela segurança das filhas, sua situação precisa ser levada a sério, sem transformar seu relato em prova automática contra ninguém e sem permitir que ele seja descartado por conveniência.
O Brasil precisa de memória, transparência, responsabilidade e coragem para investigar todos os lados. Não condene por boatos, mas também não absolva por paixão política. Não ignore um pedido de socorro porque ele envolve personagens poderosos. E não entregue seu voto a quem exige confiança, mas se recusa a prestar esclarecimentos.
Vamos pensar um pouco. Vamos colocar nossa mente para funcionar. A internet recupera a memória; a inteligência artificial ajuda a organizar as peças. Mas a consciência continua sendo responsabilidade de cada cidadão. O voto não tem preço; tem consequência. E o silêncio diante de perguntas legítimas também tem consequências.























