Por Mário Plaka (*)
Normalmente, não gosto de expressões como “bomba” ou “a casa caiu”. São frases que, muitas vezes, substituem argumentos, diminuem o debate e tentam produzir impacto quando faltam fatos para sustentar uma crítica. Quem tem argumentos apresenta. Quem tem provas, mostra. Quem tem compromisso com a verdade não precisa esconder a fragilidade de suas ideias atrás de frases de efeito.
Mas, quando digo que um dia a casa cai, estou falando de algo muito maior: das consequências de um projeto de poder que, ao longo de mais de duas décadas de protagonismo do PT na política nacional, acumulou denúncias, escândalos, crises institucionais e questionamentos que continuam exigindo respostas da sociedade brasileira.
Estamos diante de um país em que parcela da população desconfia das instituições, questiona decisões judiciais e enxerga possíveis alinhamentos políticos onde deveria prevalecer a independência. Quando parlamentares recorrem reiteradamente ao Judiciário após derrotas políticas, cabe perguntar: estamos diante do exercício legítimo do direito de recorrer ou de uma relação que merece maior escrutínio público? A resposta precisa vir dos fatos, das decisões fundamentadas e da transparência — não da blindagem de quem quer que seja.
Isso vale para parte da imprensa e para integrantes das estruturas de comando das Forças Armadas e dos órgãos de segurança. Nenhuma instituição deve ser tratada como propriedade de um partido, de um governo ou de um grupo ideológico. A lealdade de seus integrantes deve ser à Constituição e ao Brasil, não a projetos particulares de poder.
E o debate de ontem, entre Lula e Flávio Bolsonaro, trouxe novamente à superfície as feridas de um país profundamente dividido. O confronto foi marcado por acusações, provocações e questionamentos sobre suspeitas de corrupção. Não basta, porém, acusar: é preciso apresentar provas, responder às perguntas e permitir que os fatos sejam apurados. O brasileiro está cansado de assistir a políticos exigindo explicações dos adversários enquanto tentam escapar das próprias perguntas.
A postura de Lula durante determinados momentos do debate, inclusive na maneira como se posicionou diante das câmeras e encerrou sua participação, pode ser interpretada politicamente como desconforto ou tentativa de evitar o confronto direto. Isso, isoladamente, não prova culpa alguma. Mas também não impede que o cidadão questione, observe e tire suas próprias conclusões sobre a postura de quem pretende continuar governando o país.
O que não se pode aceitar é que uma nação rica, de povo trabalhador, com recursos naturais, capacidade produtiva e potencial para prosperar continue convivendo com escândalos sucessivos, suspeitas de irregularidades e uma confiança pública tão desgastada. Depois de tantos anos de protagonismo do PT, o Brasil merece mais do que discursos, promessas e disputas permanentes de narrativa. Merece resultados, responsabilidade e prestação de contas.
E há outro aspecto preocupante: a desinformação eleitoral. Montagens, conteúdos manipulados, acusações sem provas e notícias falsas circulam para confundir o eleitor e destruir reputações. Decisões recentes do Tribunal Superior Eleitoral determinaram a retirada de publicações com conteúdo falso ou ilícito envolvendo os candidatos. É preciso cobrar responsabilidade de todos os envolvidos, inclusive de políticos e apoiadores que se beneficiam da mentira. A verdade não pode ser defendida seletivamente: vale para Lula, para Flávio, para seus partidos e para todos os seus apoiadores.
É nesse cenário que Flávio Bolsonaro chega à reta final da disputa presidencial, apresentando-se como alternativa ao atual governo. Há uma parcela expressiva da população que deseja mudança, e as pesquisas mostram uma eleição apertada. Mas nenhuma vitória está selada antes da apuração. O voto pertence ao eleitor, e é ele quem decidirá o futuro do país no próximo domingo.
O Brasil que o próximo presidente encontrará será um país endividado, polarizado, desconfiado e exigente. Se Flávio vencer, terá a responsabilidade de demonstrar que a mudança não será apenas uma troca de nomes, mas uma mudança real de práticas, prioridades e compromissos. Não basta denunciar os erros dos outros: é preciso não os repetir.
E aqui retomo uma expressão popular que merece reflexão: as aves da mesma plumagem voam juntas. No campo político, alianças, discursos e comportamentos revelam muito sobre os grupos que se aproximam e os valores que defendem. Mas essa reflexão precisa alcançar todos os lados.
Nenhum eleitor pode ser julgado automaticamente pelo rosto, pelo modo de andar, pela roupa, pelo endereço ou pela condição social. Há apoiadores de diferentes correntes políticas nas mansões, nos apartamentos, nas periferias, nas palafitas e em todos os espaços da sociedade.
O que distingue as pessoas não é o lugar onde moram, mas os princípios que defendem, as escolhas que fazem e a responsabilidade com que exercem a cidadania. Não podemos combater a intolerância política reproduzindo o preconceito que condenamos.
Ainda assim, há uma percepção que se espalha pelas ruas e que não pode ser ignorada. O que muitos dizem ouvir e ver é a comemoração de criminosos dentro de comunidades e presídios, com manifestações de apoio e pressão para que o atual presidente continue no poder. Essa percepção foi mencionada no debate de ontem porque está presente no cotidiano de muitas famílias e faz parte da realidade política que precisa ser discutida com seriedade, sem generalizações e sem transformar suspeitas em provas.
O eleitor de esquerda também é reconhecido, segundo seus críticos, por determinados comportamentos e manifestações públicas observados em encontros políticos, inclusive no encontro da Avenida Paulista e em atos ligados à esquerda. É preciso, porém, separar responsabilidade individual de julgamento coletivo. Ninguém deve ser considerado criminoso por votar em determinado partido ou por participar de uma corrente política. Mas a sociedade tem o direito de questionar quando grupos ou pessoas passam a defender, apoiar ou comemorar práticas criminosas.
É justamente essa a pergunta que muitos eleitores fazem: como um pai de família, uma mãe, ou alguém que já foi assaltado, como foi relatado por Flávio, pode continuar votando da mesma forma que aqueles que apoiam ou celebram pessoas acusadas de crimes terríveis — tanto contra o erário público quanto contra trabalhadores nas ruas? A pergunta não deve servir para condenar automaticamente todos os eleitores de um lado, mas para provocar uma reflexão sobre os valores que cada cidadão aceita tolerar, justificar ou defender em nome de uma disputa política.
A democracia permite escolhas diferentes, mas também exige coerência. Quem combate a violência precisa rejeitar a violência, independentemente de quem a pratique. Quem defende a honestidade deve cobrar transparência de aliados e adversários. E quem pede respeito às instituições não pode aplaudir abusos apenas porque beneficiam o próprio grupo.
A verdade é que o poder passa, os discursos envelhecem e as narrativas encontram seus limites diante dos fatos. Quem planta desconfiança colhe desconfiança. Quem planta divisão colhe divisão. Quem planta irresponsabilidade precisa responder pelas consequências. E quem acredita que permanecerá eternamente protegido pela força política, pelas alianças ou pela influência institucional deveria compreender uma lição elementar: nenhuma estrutura é indestrutível.
Um dia a casa cai. Não porque uma frase de efeito determine o destino de alguém, mas porque nenhuma sociedade pode ser enganada indefinidamente, nenhuma instituição deveria estar acima da crítica e nenhum governante pode exigir confiança sem prestar contas.
O Brasil não precisa de salvadores, nem de políticos que se considerem intocáveis. Precisa de instituições independentes, Justiça imparcial, imprensa responsável, representantes comprometidos e um povo livre para cobrar, fiscalizar e escolher.
Porque, no fim das contas, a história não se curva eternamente ao poder. E a colheita, cedo ou tarde, chega para todos.























