O sul do Líbano transformou-se em um cenário de devastação absoluta. À medida que os combates terrestres se intensificam e as soluções diplomáticas se mostram inexistentes, Israel avança com uma política de “terra arrasada”, reduzindo a escombros o que restava das aldeias na linha de frente. No epicentro deste caos, surge uma questão central levantada pelo jornalista Allan Sarkis: como o Hezbollah, após décadas de promessas de segurança, mergulhou o país em um confronto que muitos já classificam como um “atropelo suicida”?
Desde o início da ofensiva — apresentada pelo Hezbollah como uma vingança pela morte do Líder Supremo Ali Khamenei — o grupo tenta projetar uma imagem de controle e poder militar. Essa percepção é alimentada por uma sofisticada máquina midiática gerada diretamente pela Guarda Revolucionária Iraniana. O objetivo é claro: saturar a opinião pública com narrativas de resistência, ainda que muitas vezes desconectadas da realidade tática no front.
No entanto, segundo o jornalista Allan Sarkis, o custo humano desmente a propaganda. O deslocamento massivo da população civil expõe a fragilidade do grupo. Recentemente, a visita urgente de Nabih Berri, presidente do Parlamento, ao Palácio de Baabda, soou como um pedido de socorro ao Estado libanês para lidar com os refugiados. A ironia é amarga: enquanto o Hezbollah e o regime iraniano ditam o ritmo da guerra, é o debilitado Estado libanês quem deve oferecer abrigo àqueles que foram arrastados para o conflito.
A grande incógnita militar reside na permanência do Hezbollah ao sul do rio Litani. Oficialmente, o Exército Libanês alegava que a região estava livre de armas ilegais e sob controle estatal. Contudo, a invasão israelense revelou o oposto: um arsenal iraniano vasto e profundamente enraizado.
Como isso foi possível? A reportagem aponta três fatores principais:
- A Omissão do Estado: Desde a retirada israelense em 2000, o Estado libanês permitiu que o Hezbollah operasse sem restrições, criando um “Estado dentro do Estado” onde o exército era proibido de entrar por decretos políticos.
- Infraestrutura de Guerrilha: Durante 40 anos, casas de civis, campos e vilas foram transformados em paióis e barricadas. O grupo não precisou transportar armas para o front; elas já estavam lá, escondidas sob o teto da população.
- Falha Internacional: Nem a Resolução 1701 da ONU, nem a presença da UNIFIL impediram a transformação do sul em uma fortaleza militarizada.
O que se vê hoje não é o heroísmo propagandeado pelo grupo, mas um cenário de retirada e desespero. O desequilíbrio de forças é gritante. A estratégia israelense de destruição sistemática dos marcos históricos e geográficos das cidades do sul visa impedir, inclusive, o retorno futuro dos deslocados.
Enquanto o comando em Teerã mobiliza seus peões, o Hezbollah enfrenta uma crise interna de deserções e a destruição total de suas bases logísticas. O grupo hoje trava uma batalha suicida que não apenas consome seus próprios combatentes, mas apaga a identidade e o futuro das comunidades que alegava proteger.























