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Desastre de Mariana simplificou a fauna de peixes e favoreceu espécies invasoras no Rio Doce

A análise revelou que os afluentes mantêm comunidades mais conservadas, reforçando a influência do desastre sobre a fauna aquática do rio principal

Redação por Redação
13 de julho de 2026
em Regionais
Tempo de Leitura: 3 minutos de leitura
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Inscrições para pesquisa de biodiversidade na Bacia do Rio Doce vão até 29 de julho

Vista aérea do rio Doce em Valadares (Foto: Bruno Correa/Nitro Historias Visuais)

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Dez anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), os efeitos do desastre ainda podem ser observados na fauna aquática do Rio Doce. Uma pesquisa da Universidade Federal de Lavras (UFLA) mostrou que a diversidade de espécies nativas de peixes diminuiu nas áreas mais impactadas pela lama de rejeitos, enquanto espécies invasoras passaram a ocupar espaço na calha principal do rio.

O estudo, coordenado pelo professor Paulo Pompeu, do Instituto de Ciências Naturais da UFLA (ICN/UFLA), analisou, através de isótopos estáveis, as fontes alimentares de cerca de 65 espécies de peixes do Rio Doce, em 10 pontos pela calha, e mostrou que, quanto mais próximo da área atingida pelo rompimento da barragem do Fundão, menor é a diversidade de recursos consumidos pelos peixes.


Segundo os pesquisadores, a redução dos recursos alimentares disponíveis indica que há uma diminuição da diversidade desses animais. Espécies mais especializadas tendem a desaparecer, enquanto peixes com hábitos mais generalistas e maior capacidade de adaptação encontram condições favoráveis para se estabelecer.

De acordo com Paulo Pompeu, essa é uma bacia que foi pouco estudada ao longo dos anos, o que dificultou as comparações com o ecossistema do rio de antes do desastre. “A calha do Rio Doce já era bastante impactada, com histórico de lançamento de esgoto doméstico, atividades de mineração e de desmatamento em sua bacia. Como consequência, a fauna de peixes já estava modificada.”.

Para contornar essa limitação, a equipe comparou as comunidades de peixes encontradas na calha principal do Rio Doce com aquelas presentes em rios afluentes menos impactados. A análise revelou que os afluentes mantêm comunidades mais conservadas, reforçando a influência do desastre sobre a fauna aquática do rio principal.

Os resultados indicam que o rompimento criou condições para o aumento das espécies invasoras, que geralmente são mais resistentes às mudanças no ambiente. Atualmente, a bacia do rio Doce está dominada por peixes não nativos, que já representam cerca de 25% das espécies, chegando a 50% em algumas áreas.

De acordo com o professor, esse é o principal desafio atual para recuperação da fauna aquática da Bacia. “Não existe nenhuma experiência internacional com sucesso que tenha conseguido erradicar totalmente uma espécie invasora de peixe em rios, porque eles se reproduzem rápido e são difíceis de localizar para tirar. Será necessário muito esforço para controlar essas espécies”, afirma Paulo Pompeu. Segundo o pesquisador, as principais espécies invasoras incluem tucunarés, tilápias, piranhas e uma pequena espécie de lambari. Esses peixes podem causar diversos impactos, consumindo recursos já escassos no rio e predando espécies nativas.

Apesar do cenário, os pesquisadores observam sinais de recuperação em trechos mais distantes da área do rompimento. Esse processo é impulsionado principalmente pelos rios afluentes preservados da bacia, como o rio Santo Antônio, rio Manhuaçu e o rio Piranga. “Cada bacia tem suas espécies de peixes, isso faz parte da biodiversidade brasileira. Então, quando uma bacia sofre muito impacto, existe chance dessas espécies sumirem. Não é o caso do Rio Doce, porque ele tem rios bem preservados em sua bacia que não foram impactados pelo desastre”, destaca Paulo Pompeu.

O professor explica que à medida que a água do rio melhora, peixes nativos desses afluentes voltam a ocupar a calha principal do Rio Doce. Além disso, a melhora da qualidade da água do rio é imprescindível para a recuperação acelerada das espécies nele. Caso contrário, a fauna pode levar décadas para se reintegrar. “Se o que está planejado de tratamento dos esgotos das cidades, de retirada dos rejeitos, de reflorestamento, etc. for de fato executado, há grandes chances da água do rio Doce se recuperar mais rapidamente.” acrescenta. O professor explica que é necessário também conservar os rios afluentes que têm a fauna de peixe íntegra, como o Rio Santo Antônio, que mantém 80% da fauna de peixes da bacia.

A existência desses rios preservados ajuda a explicar por que, mesmo após um dos maiores desastres ambientais da história do país, a fauna aquática do Rio Doce ainda apresenta capacidade de recuperação. “Foi um impacto importante, que alterou o rio e afetou a fauna de peixes. Mas, como o desastre não atingiu toda a bacia hidrográfica, o Rio Doce tem mostrado sinais de recuperação”, ressalta o pesquisador.

Essas conclusões integram o livro “Recuperação Ambiental da Bacia do Rio Doce: Contribuições da Ciência Após Dez Anos do Rompimento da Barragem de Fundão”, que será lançado em setembro.

Tag: faunapeixesrecuperação ambientalRio Docerompimento da barragem de FundãoUniversidade Federal de Lavras (UFLA)
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