Por Mário Plaka (*)
Para refletir: não há dúvidas de que, para um catador de fezes de elefante enriquecer, seria necessário que esse elefante estivesse num território repleto de diamantes — e que, por algum acaso, engolisse um deles. Só assim, ao remexer a miséria, o catador encontraria fortuna. Caso contrário, ele continuará exatamente onde está: condenado à função que lhe impuseram, vivendo do que sobra, sobrevivendo do que ninguém quer tocar.
E a história só muda quando entra em cena um fator que, no Reino Não Tão Tão Distante, fala mais alto do que mérito, esforço ou honestidade: o poder. Se esse catador tiver um parente poderoso, um apadrinhamento político, um sobrenome influente, então ele poderá enriquecer — não porque encontrou um diamante, mas porque a mão invisível da influência abre cofres, portas e alianças. É assim que se dilapida um reino: não pelo trabalho honesto dos humildes, mas pela ganância dos bem-posicionados que transformam cargos e conexões em minas de ouro pessoais.
O pior é que esse catador de fezes de elefante ficou tão “famosinho”, talvez pelo diamante que achou ou talvez pela força do sobrenome que carrega, que passou a ser tratado como celebridade dentro do reino. Virou exemplo fabricado, símbolo distorcido de superação. Um caso perfeito para ser usado como propaganda, como narrativa fantasiosa para enganar o povo: “Se ele conseguiu, qualquer um consegue”. Só esquecem de mencionar a parte do sobrenome, a parte da influência, a parte do poder que sustenta suas vitórias.
E o mais absurdo há uma suspeita que até mesmo aqueles que nunca cataram fezes de elefante — os pensionistas, aposentados, os velhinhos que deram a vida inteira ao trabalho — acabaram financiando, involuntariamente, a mais recente ascensão desse catador privilegiado. O reino tira deles, corta, aperta, sacrifica, tudo em nome da responsabilidade e do equilíbrio. Mas, como sempre, o dinheiro escorre para o mesmo destino: encher ainda mais os bolsos de quem nasceu sob o guarda-chuva do poder. No fim, o catador continua entrando em cena, sempre brilhando, sempre protegido, sempre intocável — não pelo que faz, mas por quem o chama de parente dentro do Reino Não Tão Tão Distante.
Moral da história: catador de fezes de elefante morre catador de fezes de elefante — a menos que encontre um diamante improvável ou seja carregado pelo sobrenome certo. Porque, no Reino Não Tão Tão Distante, sucesso não é questão de esforço, é questão de linhagem. E enquanto o povo não entender isso, continuará sustentando os mesmos privilégios, as mesmas figuras, os mesmos catadores que nunca souberam o que é viver sem proteção.























