Por Mário Plaka (*)
Logo após os acontecimentos de 8 de janeiro, o país assistiu a uma sucessão de investigações, prisões, cassações de mandatos, bloqueios de redes sociais, condenações e medidas judiciais que atingiram, em sua esmagadora maioria, pessoas identificadas com a direita brasileira.
Naquele período, ministros, parlamentares e autoridades concederam entrevistas afirmando que aqueles que, segundo seu entendimento, incentivaram ou participaram de atos contra a democracia seriam responsabilizados. As declarações eram públicas. O recado era claro: haveria consequências.
O tempo passou, e muitos perderam seus mandatos, outros se tornaram inelegíveis e vários passaram a responder a processos, enquanto jornalistas, comunicadores e influenciadores deixaram o Brasil afirmando não encontrar aqui um ambiente de liberdade para exercer suas atividades.
Nomes como Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Paulo Figueiredo Filho passaram a viver no exterior. Cada caso possui sua própria situação jurídica, mas todos têm algo em comum: afirmam que deixaram o país por entenderem que não encontrariam um julgamento imparcial ou liberdade para atuar politicamente.
É impossível ignorar esse fenômeno. Não se trata de um ou dois casos isolados. Trata-se de um conjunto de acontecimentos que marcou profundamente a política brasileira.
Também é impossível deixar de observar o que ocorreu nos Estados Unidos após os acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, com a invasão do Capitólio. A resposta das instituições americanas resultou em centenas de investigações, processos e condenações. Desde então, uma parcela significativa dos apoiadores de Donald Trump sustenta que houve um uso excessivo do aparato estatal contra pessoas ligadas ao movimento conservador, enquanto outros defendem que as medidas foram necessárias para proteger a democracia e responsabilizar quem violou a lei.
Independentemente da posição de cada um, o episódio mostrou como, em momentos de forte polarização, cresce o debate sobre os limites da atuação das instituições e sobre o equilíbrio entre a defesa da ordem democrática e a preservação das liberdades civis. Essa discussão inevitavelmente encontrou eco no Brasil, onde muitos passaram a enxergar semelhanças entre os dois cenários.
A pergunta que permanece é simples: se a democracia pressupõe a pluralidade de ideias, até onde pode ir a atuação do Estado sem comprometer a própria liberdade que afirma proteger?
Não existe democracia sem oposição. Não existe República sem respeito ao devido processo legal. Não existe liberdade quando o medo passa a fazer parte da atividade política.
O debate não pode ser interditado. Questionar decisões de autoridades não transforma ninguém em inimigo da democracia. Pelo contrário: uma democracia madura deve suportar críticas, inclusive as mais duras.
A história ensina que todo sistema tende a proteger a si próprio. Também ensina que nenhum sistema é maior do que a verdade.
Os fatos estão registrados. As entrevistas foram gravadas. As decisões judiciais foram publicadas. As cassações ocorreram. As investigações existem. Pessoas deixaram o Brasil. Cada cidadão tirará suas próprias conclusões.
O que jamais pode acontecer é o silêncio substituir o debate ou o medo substituir a liberdade.























