Por Mário Plaka (*)
Há um preço alto demais sendo cobrado do povo brasileiro — e ele se apresenta todos os dias, sem piedade, na forma de filas, rombos, escândalos e promessas recicladas. O país parece girar em um ciclo contínuo em que a incompetência administrativa se combina com a normalização do absurdo. O resultado é um Estado que falha no básico enquanto ostenta no supérfluo.
A fila do INSS é o retrato mais cruel dessa decadência: quase 3 milhões de pedidos parados, o maior acúmulo da história. O cidadão que trabalhou a vida inteira, pagou impostos e contribuiu para a Previdência, hoje implora por um direito constitucional que o Estado não entrega. Isso não é burocracia — é desrespeito institucionalizado.
Ao mesmo tempo, o discurso político tenta vender a ilusão de progresso. Mas a realidade responde com números, e números não mentem: o orçamento se tornou um emaranhado de emendas bilionárias, liberadas como moeda de poder. A própria admissão veio em entrevista:
“Isso é usurpação do poder. Acabou o presidencialismo”.
Quando o chefe do Executivo reconhece que parlamentares liberam 100, 150, 200 milhões como se fossem donos de cofres privados, não estamos diante de mera crítica: estamos diante de um diagnóstico institucional gravíssimo.
É o rompimento da ordem orçamentária, a deformação da separação entre poderes e a corrosão do princípio da legalidade — fundamentos que estruturam a República.
E como se não bastasse, um salto de 13,5 bilhões para 47 bilhões em emendas parlamentares se tornou rotina, sem transparência, sem pudor, sem controle.
A normalização disso é talvez a maior anomalia da nossa democracia recente.
Mas o discurso político segue: “O que fiz em quatro anos, vou fazer muito mais em oito”.
Uma frase dessas, no contexto atual, soa menos como promessa e mais como aviso.
Porque, enquanto milhões esperam em filas, a máquina pública financia viagens pomposas, comitivas inchadas, gastos extravagantes — e até episódios tão caricatos que beiram o deboche: transporte de pets, excessos cerimoniais, extravagâncias de autoridade em plena crise social. É o contraste entre o Brasil real e o Brasil oficial.
O país real sangra. O país oficial desfila. E aqui está o nó: Quando a administração pública se torna espetáculo, e a população vira plateia, a Constituição deixa de ser norte e vira ornamento. O princípio da moralidade vira ficção. A eficiência vira piada. E o dinheiro público vira combustível de vaidade política.
A história mostra o desfecho desse roteiro — e não é novidade. Diversas nações trilharam essa estrada: Chile na convulsão institucional, Argentina no colapso econômico, Venezuela no aparelhamento, Cuba na destruição de sua autonomia, vários países africanos desfigurados por governos personalistas e máquinas estatais inchadas.
O padrão é sempre o mesmo: excesso de poder, escassez de responsabilidade, e um povo pagando a conta.
O Brasil se aproxima perigosamente desse ponto quando se acostuma ao caos, quando naturaliza os rombos, quando aceita a fila, quando tolera a usurpação orçamentária e quando considera normal que a elite do poder viva em luxos enquanto o cidadão enfrenta abandono.
Em meus artigos, quase sempre pergunto: Vamos permitir que isso continue?
Agora, a pergunta é mais profunda: Quanto mais a sociedade aguenta antes de dizer basta ao descaso institucional?
Porque os rumos de uma nação nunca pertencem a discursos, promessas ou comitivas.
Pertencem à consciência coletiva — ou ao silêncio dela.
Voto não tem preço, tem consequências.























