Por Mário Plaka (*)
Há poucos dias, vivi uma situação que, à primeira vista, parecia apenas mais um dia comum de trabalho. No entanto, ela acabou se transformando em uma grande lição sobre a sociedade em que vivemos.
Como controlador e exterminador de pragas urbanas, fui contratado para realizar uma descupinização em uma residência. O ataque de cupins já comprometia móveis, armários e estruturas de madeira. Além disso, pequenas baratas infestavam diversos locais da cozinha.
Quem conhece esse tipo de serviço sabe que ele exige muito mais do que simplesmente aplicar um produto. É preciso retirar objetos dos armários, afastar móveis, abrir espaços, fazer perfurações técnicas e aplicar o inseticida nos pontos onde a praga realmente está escondida.
Durante algumas horas, a casa pareceu um verdadeiro cenário de mudança: panelas, utensílios, móveis deslocados e objetos espalhados por todos os lados. Era inevitável.
Foi então que uma menina de aproximadamente cinco ou seis anos olhou para mim e disse, com a sinceridade típica das crianças:
— “Você bagunçou a casa da minha mãe toda. Você sujou a casa da minha mãe.”
Sorri. Ajoelhei-me para ficar na altura dela e expliquei, com toda a calma:
— “O tio não veio bagunçar a casa. O tio veio consertar um problema. Para acabar com o cupim e com as baratas, primeiro é preciso mexer nas coisas. Depois tudo volta ao lugar e a casa fica muito melhor.”
Ela ouviu atentamente. Pensou por alguns segundos e compreendeu.
Enquanto conversávamos, percebi que, muitas vezes, uma criança entende uma explicação sincera com mais facilidade do que muitos adultos. Vivemos uma época em que parte da sociedade perdeu a capacidade de assumir responsabilidades. Tornou-se comum procurar culpados para tudo.
Se algo deu errado, a culpa é da família. Se fracassei, a culpa é do governo. Se fui punido, a culpa é da Justiça. Se colhi consequências, a culpa é de quem denunciou. Se perdi oportunidades, a culpa é da sociedade.
Poucos param diante do espelho para fazer a pergunta mais importante: qual foi a minha participação nisso?
É evidente que existem injustiças. Existem erros cometidos por autoridades, por instituições e por pessoas. Nem toda consequência é justa, assim como nem toda acusação corresponde à verdade. Mas uma injustiça eventual não elimina uma verdade permanente: cada ser humano precisa responder pelas escolhas que faz.
No trânsito, por exemplo, costumo repetir uma frase simples: minha preferência nunca vale mais do que a minha segurança. Estar com a razão não impede um acidente.
Da mesma forma acontece na vida. Nem toda decisão legal é prudente. Nem toda possibilidade deve ser aproveitada. Nem toda oportunidade merece ser aceita. Maturidade é entender que a liberdade sempre caminha ao lado da responsabilidade.
Infelizmente, parece que estamos vivendo uma espécie de “síndrome de Adão e Eva”. Adão culpou Eva. Eva culpou a serpente. E ninguém assumiu integralmente a própria escolha.
Essa lógica continua viva até hoje; mudam apenas os personagens. A culpa passa a ser do patrão, do juiz, do policial, do professor, do pai, da mãe, do vizinho, da imprensa, da internet ou de qualquer outra pessoa. Enquanto isso, esquecemos que nossas decisões produzem consequências.
Quem assume um compromisso deve honrá-lo. Quem se casa assume responsabilidades. Quem tem filhos torna-se responsável por educá-los. Quem dirige deve dirigir com prudência. Quem administra recursos deve prestar contas.
Quem participa de qualquer atividade precisa conhecer seus riscos e aceitar as consequências naturais de suas escolhas. Responsabilidade não é um castigo; é um sinal de maturidade.
Aquela pequena menina acreditava que eu era o responsável pela bagunça porque enxergava apenas o momento da desordem. Depois de compreender o motivo daquela aparente confusão, ela percebeu que a bagunça era apenas uma etapa necessária para eliminar um problema muito maior.
Talvez estejamos fazendo exatamente o contrário na sociedade. Estamos olhando apenas para a bagunça visível e ignorando o cupim escondido que corrói valores, destrói famílias, enfraquece instituições e alimenta a cultura da culpa.
Enquanto continuarmos procurando culpados em vez de assumirmos responsabilidades, continuaremos tratando apenas os sintomas. E jamais eliminaremos a verdadeira praga que dominou a sociedade, principalmente os políticos com mandato e seus indicados que atuam nas repartições públicas.























