O ambiente no Supremo Tribunal Federal (STF) foi marcado por momentos de tensão durante a colheita de depoimentos no inquérito que apura irregularidades envolvendo o Banco Master. Divergências entre a delegada da Polícia Federal Janaina Palazzo, o ministro relator Dias Toffoli e o juiz auxiliar Carlos Vieira Adamek antecederam e acompanharam as oitivas realizadas nesta terça-feira (30).
Foram ouvidos o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos. Ao final dos depoimentos, a delegada promoveu uma acareação entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa, enquanto o diretor do BC foi dispensado dessa etapa.
DIVERGÊNCIA SOBRE O PROCEDIMENTO
A principal discordância surgiu logo no início dos trabalhos. Responsável pelo inquérito, a delegada afirmou ter recebido orientação da cúpula da Polícia Federal para realizar diretamente uma acareação entre os envolvidos, sem a tomada prévia de depoimentos individuais. O juiz auxiliar do ministro, no entanto, sustentou que a determinação do relator era que as oitivas ocorressem antes de qualquer confronto de versões.
Diante do impasse, Carlos Vieira Adamek entrou em contato com o ministro Dias Toffoli, que confirmou a orientação para que os depoimentos fossem colhidos previamente. A solução encontrada foi registrar em ata que a ordem partia do próprio relator do processo, formalizando o procedimento adotado.
Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa participaram das negociações para a venda do Banco Master ao BRB, instituição financeira controlada pelo governo do Distrito Federal. Vorcaro foi preso em novembro, durante uma operação da Polícia Federal, ao tentar deixar o país em um avião particular com destino à Europa. As suspeitas de fraudes envolvendo o banco podem alcançar cifras de até R$ 12 bilhões.
Já Ailton de Aquino Santos, diretor do Banco Central, não figura como investigado. Ele foi ouvido por ter participado de análises técnicas relacionadas à crise enfrentada pelo Banco Master, incluindo a avaliação de alternativas como a eventual liquidação da instituição.
QUESTIONAMENTOS TAMBÉM GERARAM ATRITO
Um segundo ponto de atrito ocorreu durante a formulação das perguntas aos depoentes. O juiz auxiliar encaminhou à delegada uma lista de questionamentos para que fossem feitos durante as oitivas. Janaina Palazzo resistiu, argumentando que só poderia formular perguntas de sua autoria.
Diante da insistência, a delegada entrou em contato com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues. Segundo relatos, ele orientou que a delegada só poderia fazer os questionamentos se ficasse registrado em ata que as perguntas eram de autoria do ministro relator, e não da Polícia Federal.
BASTIDORES E VERSÕES
Fontes da Polícia Federal, do Banco Central e do gabinete do ministro confirmaram, sob reserva, a existência das divergências. Segundo interlocutores da PF e do BC, a delegada seguiu as orientações institucionais que recebeu, tanto quanto ao formato inicial da acareação quanto à autoria das perguntas.
Já pessoas próximas ao ministro Dias Toffoli afirmam que a decisão de ouvir individualmente os três envolvidos havia sido tomada previamente e que a acareação só seria realizada se surgissem contradições relevantes nos depoimentos. No caso das perguntas, confirmam que elas foram encaminhadas por orientação do próprio relator.
Superada a fase de tensão, os depoimentos foram concluídos. A delegada optou por realizar a acareação apenas entre o dono do Banco Master e o ex-presidente do BRB, dispensando o diretor do Banco Central dessa etapa da investigação.























