Por Mário Plaka (*)
Mudaram o nome, modernizaram a expressão e deram à velha prática da falsidade uma roupagem aparentemente sofisticada. Agora, chamam de fake news. Mas a pergunta é inevitável: desde quando mudar o nome de um pecado muda a sua natureza diante de Deus?
Mentira sempre foi mentira. Enganar, distorcer os fatos, inventar acontecimentos, omitir deliberadamente a verdade e manipular pessoas são práticas que não se tornam aceitáveis porque foram incorporadas ao vocabulário político ou utilizadas como estratégia de militância. A modernização das palavras não pode servir de anestesia para a consciência.
A Bíblia é categórica. Em João 8:44, Jesus Cristo identifica o diabo como mentiroso e pai da mentira. Em Provérbios 6:16-19, a língua mentirosa e a testemunha falsa aparecem entre as coisas que o Senhor abomina. Em Efésios 4:25, a ordem é direta: abandonar a mentira e falar a verdade. E Apocalipse 22:15 adverte sobre aqueles que amam e praticam a mentira.
Portanto, estamos diante de uma questão que ultrapassa as disputas partidárias. A mentira não é apenas uma ferramenta de manipulação política; à luz das Escrituras, é também uma questão moral e espiritual.
E aqui está um dos aspectos mais preocupantes da realidade brasileira: a transformação da mentira em instrumento de militância, a ponto de pessoas defenderem determinadas narrativas não porque estejam comprovadas, mas porque favorecem o político em quem acreditam. A verdade passa a ser secundária; o que importa é proteger o líder, atacar o adversário e preservar o projeto de poder.
No campo da esquerda brasileira, especialmente no entorno do PT e do governo Lula, é necessário cobrar responsabilidade por declarações, promessas, contradições e informações divulgadas à população. Luiz Inácio Lula da Silva tem sua credibilidade questionada por muitos brasileiros em razão de falas controversas e contradições apontadas por seus críticos. A crítica política precisa ser firme, sobretudo quando envolve declarações presidenciais, mas também precisa ser sustentada por fatos verificáveis. Não precisamos inventar acusações para cobrar explicações de um presidente da República.
O que não se pode aceitar é que declarações questionáveis, omissões relevantes ou informações falsas sejam defendidas automaticamente porque vieram de alguém que representa a esquerda. Tampouco se pode dar tratamento diferente à mentira conforme a identidade ideológica de quem a pratica. Se um político da direita mente, deve ser cobrado. Se um político da esquerda mente, deve ser cobrado da mesma maneira. A verdade não tem partido, e a consciência não pode ter dois pesos e duas medidas.
O problema se agrava quando a militância deixa de ser uma defesa legítima de ideias e se transforma em instrumento de disseminação deliberada de falsidades. Quando alguém fabrica uma informação para prejudicar um adversário, compartilha uma acusação sabendo que é falsa ou distorce conscientemente os fatos para proteger seu candidato, não está simplesmente fazendo política: está contribuindo para enganar a sociedade.
E quem dá ouvidos a esse tipo de prática também precisa refletir. A Bíblia não trata com leveza aqueles que amam e praticam a mentira. Existe diferença entre uma pessoa ser enganada por não conhecer os fatos e outra saber que uma informação é falsa e, ainda assim, divulgá-la porque ela favorece sua ideologia. A primeira pode ser vítima da desinformação; a segunda assume a responsabilidade de participar do engano.
É justamente por isso que o cristão precisa ter discernimento. Não basta compartilhar uma publicação porque ela ataca o adversário político. Não basta defender uma declaração porque foi feita pelo candidato preferido. Não basta repetir uma acusação porque milhares de pessoas já a divulgaram. Antes de compartilhar, é preciso verificar. Antes de acusar, é preciso comprovar. Antes de defender, é preciso examinar os fatos.
E chegamos a uma contradição ainda mais grave: a de pessoas que se apresentam como cristãs, frequentam igrejas, conhecem passagens bíblicas e afirmam defender os valores de Deus, mas, quando o assunto é política, parecem suspender os princípios que professam. Condenam a mentira quando ela vem do adversário, mas encontram justificativas quando ela beneficia o próprio candidato. Exigem honestidade dos outros, mas relativizam a desonestidade de quem apoiam.
Que testemunho cristão é esse que condena a mentira no púlpito, mas a tolera nas redes sociais? Que fé é essa que coloca a fidelidade a um político acima do compromisso com a Palavra de Deus?
A Bíblia não ensina que devemos defender um líder político acima da verdade. Não existe mandamento autorizando o cristão a mentir para eleger alguém, divulgar falsidades para proteger um governo ou fechar os olhos para o engano porque o responsável pertence ao seu campo ideológico. Nenhum presidente, partido, militante ou candidato está acima dos princípios bíblicos.
E isso vale para católicos e evangélicos. A denominação religiosa não é o ponto central; o que está em questão é a coerência entre aquilo que se professa e aquilo que se pratica. Não adianta carregar uma Bíblia, falar de Deus e proclamar valores cristãos se, na primeira conveniência política, a verdade é sacrificada para defender um homem.
A advertência de Apocalipse 22:15 é séria ao mencionar aqueles que amam e praticam a mentira. Não cabe a nós decretar o destino eterno de pessoas específicas, mas cabe a cada um examinar a própria consciência diante da Palavra. Quem se diz cristão não pode tratar como irrelevante aquilo que Deus condena.
Por isso, deixo algumas perguntas que merecem ser respondida por todo aquele que professa a fé cristã: como pode alguém que se diz cristão, seja católico ou evangélico, praticar a mentira ou divulgar uma mentira apenas porque está apoiando um político? Como pode defender declarações falsas, justificar o engano e proteger um líder cuja palavra está sendo questionada, sem antes confrontar suas atitudes com os princípios das Escrituras? Onde está o conhecimento bíblico? Onde está o discernimento espiritual? Onde está o compromisso com a verdade?
Se a fidelidade a um político exige que você negue os fatos, justifique a mentira ou ataque quem tenta esclarecê-los, talvez seja hora de rever não apenas seu posicionamento político, mas também a coerência da sua fé.
Porque o cristão não foi chamado para ser servo de partido, militante de mentira ou defensor incondicional de homens. Foi chamado para andar na verdade.
Não transforme seu candidato em um ídolo. Não transforme sua militância em uma licença para pecar. E não use o nome de Deus para justificar aquilo que a Palavra de Deus condena.
A fake news pode ser uma expressão moderna, mas a mentira é tão antiga quanto a tentação no Éden. E, diante de Deus, nenhum nome sofisticado, nenhuma bandeira partidária e nenhum projeto de poder será suficiente para transformar o engano em verdade.
Quem ama a verdade precisa defendê-la mesmo quando ela contraria seu próprio lado. Porque, para quem professa a fé cristã, a verdade não pode ser negociada nas urnas, nas ruas, nas igrejas ou nas redes sociais.
“Pelo que deixai a mentira e falai a verdade cada um com o seu próximo.” — Efésios 4:25
(*) O analista político e cronista Mário Plaka é sócio fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes (AJOIA Brasil)























