Por Mário Plaka (*)
A sociedade costuma enxergar o crime de forma simplista: de um lado, o criminoso; do outro, a vítima. Mas essa visão ignora uma realidade mais profunda e perigosa — a de que o crime raramente é um ato isolado. Ele é, quase sempre, resultado de uma cadeia de participação.
O receptador, que compra ou esconde um produto roubado, pode até não sujar as mãos no momento do roubo. Mas é ele quem mantém o mercado ativo. Sem quem compre, o crime perde o sentido. Sua participação não é passiva — é combustível.
O cúmplice, por sua vez, atua nos bastidores. Não aparece, não executa, mas facilita. Dá suporte, oferece informações, cria condições. É a engrenagem silenciosa que garante que o crime aconteça. Sem ele, muitos delitos sequer sairiam do papel.
E há o mandante — o mais frio de todos. Aquele que não executa, mas decide. Que transforma a vida humana em ordem, em estratégia, em interesse. É a mente por trás da violência, muitas vezes escondida atrás de aparências respeitáveis.
O que une essas três figuras é algo que não pode ser ignorado: consciência e escolha. Nenhum deles está ali por acaso. Todos sabem, em maior ou menor grau, que fazem parte de algo ilícito — e, ainda assim, continuam.
É aí que mora a verdade que muitos preferem evitar: o crime não é sustentado apenas por quem o executa, mas por todos que, direta ou indiretamente, o alimentam.
Essa lógica não se limita ao mundo jurídico — ela é também moral. Toda vez que alguém se beneficia, facilita ou ordena uma ilegalidade, contribui para um sistema que prejudica a sociedade como um todo.
No fim, a diferença entre eles não está na culpa, mas na forma de participação. A essência é a mesma: todos fazem parte da engrenagem que mantém o crime vivo.
E enquanto essa engrenagem continuar sendo alimentada, a justiça sempre chegará atrasada — correndo atrás de um problema que já foi coletivamente construído.
Trazendo essa reflexão para a realidade política, surge uma questão incômoda:
Quando o eleitor sabe que um político é enganador, mentiroso e corrupto — e, ainda assim, o defende, vota nele e até espalha desinformação para protegê-lo — deixa de ser apenas eleitor.
Passa a ser participante. Coautor. Cúmplice.
Porque quem sustenta, legitima.
Quem defende, fortalece.
Quem vota consciente, assume responsabilidade.
Mais uma vez: Ladrão não tem eleitor. Tem cúmplices.























