Por Mário Plaka (*)
Durante muitos anos, o povo brasileiro foi levado a acreditar em uma ideia confortável: a de que existia, no topo do sistema, uma instância neutra, técnica e comprometida exclusivamente com a Constituição. Essa instância tem nome — o Supremo Tribunal Federal (STF).
Acreditávamos que ali estava o último bastião da justiça. O lugar onde o certo prevaleceria sobre o errado, onde a lei falaria mais alto do que interesses, onde o cidadão — aquele que paga impostos, sustenta a máquina pública e carrega o país nas costas — teria, enfim, a garantia de que a justiça seria feita.
Mas essa crença começou a ruir.
Não de forma repentina, mas progressiva. E, nos últimos anos, aquilo que antes parecia teoria passou a se apresentar de forma clara. Para muitos brasileiros, as máscaras começaram a cair.
A constatação é dura, mas necessária: não existe almoço de graça.
Nenhuma indicação é neutra. Nenhuma nomeação vem sem origem. Nenhum ser humano está imune às relações que construiu ao longo da vida. Quem é indicado, naturalmente carrega vínculos. Carrega gratidão. Carrega memória.
E aqui está o ponto central que hoje se evidencia: o indicado dificilmente olhará da mesma forma para quem o indicou, para quem o defendeu ou para quem construiu, nos bastidores do poder, um caminho favorável à sua chegada. Da mesma forma, não olhará com neutralidade absoluta para aqueles que o confrontaram, que o pressionaram ou que o colocaram em situações desconfortáveis durante sabatinas.
Isso não é teoria. Isso é comportamento humano.
Quando esse fator entra em cena dentro de instituições que deveriam ser absolutamente imparciais, o risco é evidente. O que deveria ser julgamento técnico passa a ser, ainda que de forma sutil, influenciado por relações, memórias e percepções pessoais.
E é exatamente essa leitura que cresce entre muitos brasileiros: a de que decisões têm sido percebidas não apenas como jurídicas, mas como políticas.
A decepção nasce da quebra de expectativa.
Durante décadas, vendeu-se a ideia de uma corte blindada, distante de influências. Hoje, para muitos, essa imagem já não se sustenta.
E diante dessa realidade, surge uma reflexão inevitável — e uma proposta.
Se a indicação política gera vínculo, se o vínculo gera influência, então é preciso repensar o modelo.
É nesse ponto que se posiciona o Grupo Ouvidoria Popular: defendemos que ministros do Supremo e também desembargadores passem por um novo processo de legitimação. Que sejam, sim, sabatinados pelo Senado Federal do Brasil e pelo Congresso, avaliados tecnicamente, questionados de forma rigorosa — mas que, após essa etapa, sejam submetidos ao voto popular.
Que seja o povo, em última instância, a conferir legitimidade.
Porque quem paga a conta do Estado é o cidadão. Quem sustenta os poderes é o povo. E, portanto, nada mais justo que tenha voz direta na escolha daqueles que ocuparão os mais altos cargos do Judiciário.
Essa não é uma proposta simples. Não é uma mudança trivial. Mas nasce de uma percepção cada vez mais clara: o modelo atual gera vínculos que não podem ser ignorados.
E quando esses vínculos passam a influenciar decisões, a confiança se rompe.
E sem confiança, não há instituição que se sustente.
A frase que abre este editorial continua sendo a síntese de tudo: não existe almoço de graça.
Toda indicação tem origem. Toda relação tem peso. E toda decisão carrega, inevitavelmente, a trajetória de quem a toma.
Cabe agora ao povo não apenas assistir — mas refletir, questionar e decidir qual modelo deseja para o futuro.























