Por Mário Plaka (*)
Vivemos tempos em que tudo passou a ser relativo. A democracia é relativa. A justiça é relativa. A verdade é relativa. O certo e o errado deixaram de ser princípios e passaram a ser conveniências. Tudo depende de quem está no poder, de quem controla a narrativa e de que lado se está.
Esse relativismo não é novo. Ele já foi denunciado, com humor e sátira, nas grandes novelas brasileiras — aquelas que faziam o povo rir exatamente porque expunham a verdade sem maquiagem.
Em Roque Santeiro, na fictícia Asa Branca, Sinhozinho Malta mandava em tudo. Seu bordão, “tô certo ou tô errado?”, nunca foi uma pergunta. Era uma ordem disfarçada. E seus aliados, sempre submissos, concordavam. Afinal, quem manda nunca erra. A lei se adaptava ao poder, a moral se dobrava à conveniência e a verdade tinha dono. Asa Branca era uma caricatura do Brasil. O problema é que o tempo passou e nada disso mudou.
Hoje, o cenário é outro, mas a lógica é a mesma. Vivemos sob uma crescente insegurança jurídica, onde decisões variam conforme o réu, o cargo ou a ideologia. A mesma conduta que condena um absolve outro. A lei deixa de ser um pilar e vira um instrumento. A justiça, que deveria ser cega, parece enxergar muito bem para quem olha.
A democracia também entrou nesse jogo de relativizações. Fala-se em democracia o tempo todo, mas pratica-se uma democracia de faz de conta, onde o contraditório é tratado como ameaça e a discordância vira rótulo. O voto é celebrado, mas a vontade popular é frequentemente ignorada quando atrapalha os interesses da elite política e institucional.
Em Que Rei Sou Eu?, a sátira era ainda mais direta. Um reino fictício, uma corte decadente, um povo explorado e um poder que se autoafirmava. O rei perguntava: “Quem sou eu?”, e a resposta vinha em coro: “És tu, és tu, és tu”. O soberano não precisava servir ao povo — o povo existia para sustentar a corte. O poder se legitimava a si mesmo.
A novela parecia exagerada. Hoje, parece um retrato fiel.
Enquanto o povo enfrenta carestia, impostos, sobreimpostos e a corrosão diária do salário, a corte vive em festa. Em Brasília, o banquete nunca acaba. Privilégios se acumulam, gastos se justificam, e o sofrimento real do povo vira detalhe estatístico. A soberania nacional, tão proclamada nos discursos, também se mostra relativa: serve para discursos inflamados, mas desaparece diante de interesses, acordos e conveniências.
Relativiza-se tudo: o gasto público, a responsabilidade fiscal, os valores, a verdade, a identidade, as relações humanas. Até o amor virou algo temporário. A amizade, utilitária. A palavra, descartável. Vive-se no eterno “pode ser que sim, pode ser que não”. Ninguém assume nada com firmeza. É o velho “não sou a favor nem contra, muito pelo contrário”.
O problema é que uma sociedade onde tudo é relativo perde o rumo. Quando não há valores firmes, quem está no topo define o que é certo. Quando não há limites claros, o poder deixa de servir e passa a se servir.
A Bíblia já advertia: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem chamam mal; que fazem da escuridão luz e da luz escuridão” (Isaías 5:20). Não é apenas uma advertência religiosa, mas um alerta moral e civilizatório. Uma nação que relativiza tudo acaba relativizando a própria dignidade do seu povo.
As novelas acabaram. A comédia saiu do horário nobre. Mas o enredo continua o mesmo.
O palco agora é a vida real. E quem paga o preço — como sempre — é o povo.























