Por Mário Plaka (*)
Quando li à reportagem da Jovem Pan mostrando que Ubá recebeu cerca de 14 milhões em emendas, inclusive emendas Pix, e praticamente nada foi destinado à infraestrutura preventiva, eu não vi novidade. Eu vi confirmação. Porque o problema não é apenas o dinheiro que chega. O problema é quem está sentado na cadeira para decidir o que fazer com ele. Em muitos municípios, cargos estratégicos como Infraestrutura e Defesa Civil viraram prêmio político, viraram troféu para cabo eleitoral, viraram pagamento de apoio de campanha.
Colocam coordenadores, gerentes e chefes que não têm formação técnica, que não entendem de solo, que não sabem ler um laudo estrutural, que não sabem interpretar um mapa de área de risco. E eu falo isso com responsabilidade: já vi gestor da Defesa Civil que não sabia a diferença entre relatório técnico e relatório político.
Já vi chefe que não sabia cobrar da equipe um levantamento sério porque não conhecia a matéria. Já vi coordenação ocupada por gente sem preparo mínimo para a função. Infraestrutura não aceita amadorismo. Defesa Civil não é cargo de confiança política, é função técnica.
Quando o prefeito nomeia por amizade, quando o vereador indica por favor político, quando o deputado emplaca um apoiador como troca de apoio, todos assumem a responsabilidade pelo que vier depois, porque o que vem depois é previsível: encosta sem contenção, rio sem desassoreamento, rede pluvial sem limpeza, construção irregular avançando, prédios antigos sem vistoria. E quando a chuva cai, ninguém sabe para onde correr. Ficam todos batendo cabeça, montando reunião emergencial, procurando relatório que nunca foi feito, tentando justificar o que não foi prevenido. O dinheiro chega, mas a obra preventiva não sai. E não é porque a cidade não sabe onde estão os problemas.
Toda cidade conhece seus pontos críticos, toda prefeitura sabe quais bairros alagam, toda secretaria sabe quais encostas são frágeis. Isso não é surpresa técnica, isso é negligência administrativa. Eu afirmo com tranquilidade que, se uma equipe técnica séria sair hoje para fazer um levantamento estrutural em qualquer cidade que sofreu tragédia recente, vai encontrar falhas graves de prevenção, áreas mapeadas sem intervenção e recursos recebidos sem aplicação estrutural adequada.
Isso cria problema administrativo? Cria. Incomoda prefeito? Incomoda. Atinge governador? Atinge. Mas o que mais deveria incomodar é a consciência, porque cada tragédia que poderia ter sido evitada e não foi não é apenas força da natureza, é falha humana, é decisão mal tomada, é cargo mal ocupado, é prioridade invertida.
E aqui entra também a responsabilidade da população. A população precisa perguntar quem está à frente da Defesa Civil, precisa cobrar currículo técnico, precisa perguntar onde foi aplicado o recurso, precisa exigir relatório público de prevenção e deixar de aceitar improviso como normal. Agente público precisa entender que nomeação irresponsável é decisão com consequência real.
Vereador que indica sem critério técnico assume risco junto. Deputado que interfere para acomodar aliado assume responsabilidade moral. Prefeito que escolhe por conveniência responde pela estrutura que falha. Chega de naturalizar o previsível. Dinheiro público não pode virar moeda política enquanto a cidade permanece vulnerável.
Porque quando a chuva cai não é o discurso que segura a encosta, não é o favor político que impede o deslizamento, não é o improviso que salva vidas. Ou profissionalizamos a prevenção ou continuaremos enterrando vítimas de decisões administrativas mal feitas. A escolha é pública. A responsabilidade também.























