Por Mário Plaka (*)
O Brasil enfrenta um problema que não pode continuar escondido atrás de discursos de campanha, propagandas de governo e disputas partidárias. Estamos falando da formação dos nossos jovens, daqueles que estão deixando a adolescência e se preparando para entrar no mercado de trabalho, assumir responsabilidades, constituir famílias e conduzir o futuro do país.
Que futuro podemos esperar de uma nação que não consegue garantir a todos os seus jovens o domínio adequado da leitura, da escrita e da matemática?
Os resultados do Pisa 2022 acenderam um sinal de alerta: 73% dos estudantes brasileiros de 15 anos ficaram abaixo do nível básico de proficiência em matemática, enquanto 50% não alcançaram esse nível em leitura. Não estamos falando de uma dificuldade isolada, mas de um problema educacional que compromete as oportunidades de uma parcela expressiva da próxima geração.
E onde estavam os governos? Onde estavam os parlamentares responsáveis por fiscalizar as políticas públicas e cobrar resultados? Onde estavam os representantes que, eleição após eleição, disputam o voto da população, mas precisam explicar o que fizeram para enfrentar essa realidade?
A educação não pode ser prioridade apenas no discurso. Precisa ser prioridade nos resultados.
A matemática não serve apenas para passar de ano. Serve para administrar o salário, calcular despesas, compreender juros, avaliar descontos, medir distâncias, reconhecer proporções e resolver problemas cotidianos. A língua portuguesa não serve apenas para escrever corretamente: permite interpretar informações, compreender contratos, identificar contradições, argumentar e tomar decisões conscientes. São competências fundamentais para a vida, para o trabalho e para o exercício da cidadania.
Quando o jovem chega à idade adulta sem dominar essas ferramentas, sua entrada no mercado de trabalho se torna mais difícil. E não podemos atribuir toda essa responsabilidade ao próprio jovem, à sua família ou à falta de esforço individual. É necessário examinar a qualidade do ensino, as condições sociais, a gestão das escolas e a efetividade das políticas educacionais.
É nesse ponto que a responsabilidade política precisa ser cobrada com mais rigor.
O PT esteve à frente do governo federal de 2003 a 2016 e voltou à presidência em 2023. São períodos relevantes de responsabilidade sobre a política educacional nacional. Isso não significa que o partido tenha governado ininterruptamente, nem que seja o único responsável pelos problemas da educação brasileira. Mas significa que seus governos precisam prestar contas dos resultados alcançados durante seus mandatos, assim como todos os demais governos devem responder por suas próprias decisões e omissões.
E a cobrança não termina no Palácio do Planalto.
Governadores, prefeitos, deputados estaduais, deputados federais e senadores também precisam responder pela parte que lhes cabe. O Congresso Nacional aprova orçamentos, estabelece leis e fiscaliza o Poder Executivo. As assembleias legislativas e as câmaras municipais exercem funções semelhantes dentro de suas competências. Quando a fiscalização é insuficiente, as políticas públicas podem continuar consumindo recursos sem que a sociedade tenha clareza sobre os resultados efetivos.
Não basta aprovar verbas para a educação. É preciso verificar se o dinheiro chega aonde deveria, se os professores recebem o apoio necessário, se os alunos aprendem e se as deficiências são corrigidas. A responsabilidade pública não se encerra com a matrícula do estudante, a divulgação de um programa ou a apresentação de um relatório. Ela exige resultados mensuráveis.
E aqui cabe uma pergunta incômoda para a política brasileira: de que adianta disputar o poder se não existe compromisso permanente com a formação intelectual das próximas gerações?
Há também uma preocupação que merece ser tratada com seriedade: a relação entre conhecimento e autonomia política. Um cidadão que tem dificuldade para interpretar textos, confrontar informações e compreender números pode encontrar mais obstáculos para avaliar promessas eleitorais, analisar gastos públicos e reconhecer argumentos enganosos. Isso não significa que pessoas com menor escolaridade votem de determinada maneira ou sejam incapazes de tomar decisões conscientes. Significa que a educação amplia as ferramentas disponíveis para o exercício da cidadania.
Por isso, declarações atribuídas a lideranças políticas sobre a relação entre escolaridade e preferência eleitoral precisam ser verificadas em sua fonte e em seu contexto. Nenhum político deveria tratar o conhecimento da população como ameaça ou vantagem eleitoral. O compromisso democrático deve ser o de ampliar a capacidade de cada cidadão de pensar por conta própria, independentemente de partido ou ideologia.
Se alguém pretende transformar essa discussão em disputa entre esquerda e direita, desviará o foco do problema. A pergunta fundamental não é qual partido consegue conquistar o eleitor menos informado. É qual política pública consegue oferecer a cada criança e a cada jovem condições reais de aprender, desenvolver habilidades e construir seu futuro.
O Poder Executivo precisa estabelecer metas de aprendizagem, fortalecer a alfabetização, oferecer reforço escolar e acompanhar o desempenho dos estudantes. Governos estaduais e prefeituras precisam melhorar a gestão das redes de ensino e aproximar a formação escolar das necessidades da vida e do trabalho. O Poder Legislativo precisa fiscalizar os recursos, cobrar resultados e corrigir políticas que não estejam funcionando.
E as famílias também têm uma responsabilidade indispensável: acompanhar a vida escolar, incentivar a leitura, valorizar o conhecimento e participar da formação dos filhos. Mas essa participação precisa ser acompanhada de condições concretas para que todas as famílias possam cumprir seu papel. A Constituição Federal estabelece, em seu artigo 205, que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade.
O mercado de trabalho está mudando. A inteligência artificial e as novas tecnologias exigem capacidade de adaptação, interpretação e aprendizagem contínua. Se o país não enfrentar suas deficiências educacionais, poderá ampliar as desigualdades e deixar muitos jovens em desvantagem justamente quando mais precisam de oportunidades.
Por isso, o eleitor precisa olhar além da propaganda. Precisa perguntar aos candidatos à presidência, aos parlamentares e aos governadores quais são suas metas, como pretendem alcançá-las, quanto vão investir e como a população poderá verificar os resultados. E precisa continuar cobrando depois das eleições, porque o voto não encerra a responsabilidade do cidadão: inaugura o dever de acompanhar aqueles que receberam sua confiança.
O Brasil não pode conduzir seu destino como se estivesse apenas ouvindo a música “Deixa a vida me levar”.
Uma nação não se desenvolve por inércia. Não prepara suas gerações por improviso. E não resolve suas deficiências educacionais com discursos de ocasião.
A geração que está entrando no mercado de trabalho não pode ser responsabilizada sozinha pelas deficiências que encontra. Antes de cobrar produtividade, precisamos garantir formação. Antes de exigir experiência, precisamos oferecer oportunidades. Antes de falar em desenvolvimento nacional, precisamos assegurar que nossos jovens tenham as ferramentas intelectuais necessárias para construir esse desenvolvimento.
A cobrança vale para o presidente da República, governadores, prefeitos, deputados e senadores. Vale para a esquerda, para a direita e para todos os grupos políticos que exercem ou disputam o poder. Quem governa precisa apresentar resultados. Quem legisla precisa fiscalizar. Quem fiscaliza precisa demonstrar o que fez. E quem pede o voto precisa explicar como pretende preparar o país para o futuro.
Porque uma coisa precisa ficar clara: o maior patrimônio de uma nação não é apenas aquilo que ela possui hoje, mas aquilo que é capaz de ensinar à geração que vai conduzi-la amanhã.
O Brasil precisa decidir se continuará tratando a educação como promessa de campanha ou se finalmente a colocará no centro de um projeto sério de desenvolvimento nacional.
(*) O analista político e cronista Mário Plaka é sócio fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes (AJOIA Brasil)























