Por Mário Plaka (*)
A história está repleta de exemplos em que populações foram submetidas ao terror antes, durante e depois dos conflitos. O objetivo não é necessariamente destruir fisicamente o adversário. Muitas vezes, basta destruir sua capacidade de reagir, sua confiança, sua esperança e sua capacidade de pensar racionalmente.
E o mundo acaba de atravessar uma experiência que deveria ser estudada durante décadas: a pandemia. Não estamos discutindo aqui a existência ou a gravidade da doença. Estamos discutindo outra coisa: o efeito psicológico e social da comunicação do medo em escala mundial.
Durante aquele período, milhões de pessoas acordavam e dormiam acompanhando números de mortes, imagens de hospitais, notícias alarmantes, previsões catastróficas e discursos políticos cada vez mais polarizados.
As redes sociais multiplicaram esse conteúdo em uma velocidade jamais experimentada pela humanidade.
O medo deixou de ser apenas uma reação a um acontecimento. O medo passou a ser também uma informação. E uma informação repetida incessantemente pode modificar comportamentos, mercados, decisões políticas e até relações entre pessoas. É justamente aí que precisamos aprender uma lição para o futuro.
Se o terror pode ser utilizado como arma de guerra, ele também pode ser utilizado — deliberadamente ou não — como instrumento de controle social em uma crise. Por isso, não basta perguntar quantas pessoas morreram. Precisamos também perguntar quantas decisões foram tomadas sob pressão, quantas informações estavam corretas, quantas estavam erradas, quais interesses econômicos foram beneficiados, quais empresas ganharam bilhões, quais políticas funcionaram, quais fracassaram e quais decisões produziram consequências que somente agora começam a ser compreendidas.
O problema não é fazer perguntas. O problema seria deixar de fazê-las.
E aqui voltamos ao Professor Jiang. Quando um analista aparece dizendo que determinada guerra acontecerá, que determinado país entrará em colapso, que determinado bloco econômico perderá força ou que determinada potência caminhará inevitavelmente para um conflito, precisamos ter cuidado para não transformar análise em profecia. Porque existe uma diferença entre prever um acontecimento e contribuir para criar a expectativa de que ele inevitavelmente acontecerá.
Uma população aterrorizada pode tomar decisões que jamais tomaria em condições normais. Um mercado assustado pode reagir antes que os fatos aconteçam. Um governo pressionado pode agir preventivamente. Uma sociedade dividida pode aceitar medidas que, em circunstâncias diferentes, jamais aceitaria. É assim que o medo pode transformar-se em poder.
Por isso, quando ouvimos previsões sobre guerras futuras, precisamos perguntar: Quem está falando? De onde vieram os dados? Quais são as fontes? Quem financia essa estrutura? Quais previsões estavam erradas? Quem amplifica essa mensagem? Quem ganha com o medo? E que comportamento essa narrativa pretende produzir?
Essas perguntas não significam acusar ninguém. Significam exercer aquilo que uma sociedade livre deveria exercer permanentemente: o direito de pensar, questionar e investigar.
A pandemia deixou uma lição que não podemos desperdiçar: em uma sociedade conectada, o controle da informação pode ser tão estratégico quanto o controle de um território.
E talvez a próxima grande guerra não comece com um disparo. Talvez comece com uma narrativa. Primeiro vem a previsão. Depois, o medo. Em seguida, a reação. E, finalmente, alguém pode descobrir que aquilo que parecia apenas uma previsão ajudou a produzir a realidade que estava sendo anunciada.
Pensar faz bem. Mas, diante do poder da informação, precisamos continuar perguntando: Pensar faz bem para quem? E faz mal para quem?
Porque, no século XXI, talvez a maior batalha não seja apenas pela conquista de territórios.
Talvez seja pela conquista da mente humana.























