Por Mário Plaka (*)
Há uma verdade que muitas vezes preferimos não encarar: ninguém nasce sabendo ser honesto, respeitoso, responsável ou digno. Esses valores precisam ser ensinados, praticados e, principalmente, vivenciados por meio do exemplo.
A formação do caráter começa dentro de casa. É no ambiente familiar que a criança começa a descobrir o que significa respeitar o próximo, cumprir uma promessa, reconhecer um erro, pedir desculpas, trabalhar, dividir, ajudar e compreender que liberdade também significa responsabilidade.
Mas a família não vive isolada. A criança também é formada pela escola, pelos amigos, pela comunidade, pela internet, pela vizinhança e por tudo aquilo que observa diariamente.
É aí que precisamos falar das áreas de risco. Morar em uma comunidade pobre, em uma periferia ou em uma região marcada pela violência não transforma ninguém em criminoso. Milhões de brasileiros vivem nessas condições e constroem suas vidas com dignidade. O problema aparece quando a criança cresce em um ambiente onde o crime está próximo, onde traficantes são vistos como referências de poder, onde a violência faz parte da rotina e onde determinados comportamentos passam a ser apresentados como normais.
Quando o jovem vê alguém enriquecendo por meio do crime, enquanto o trabalhador honesto enfrenta dificuldades, surge uma perigosa inversão de valores. Quando ele observa que quem ameaça é respeitado pelo medo, enquanto quem trabalha honestamente é tratado como alguém sem importância, a sociedade está ensinando uma lição terrível — mesmo que ninguém tenha colocado essa lição em um livro.
Crianças aprendem muito mais com aquilo que veem do que com aquilo que ouvem. Por isso, não adianta dizer a um filho para ser honesto se ele presencia diariamente pequenas desonestidades dentro de casa. Não adianta falar sobre respeito se os adultos se tratam com violência. Não adianta exigir responsabilidade de um jovem quando os próprios adultos fogem das consequências de seus atos. Também não adianta esperar que a escola resolva sozinha aquilo que a família, a sociedade e o poder público deixaram de fazer.
Educação não é apenas ensinar a ler e escrever. Educação também é formar cidadãos. Ensinar matemática, português, história e ciências é fundamental. Mas ensinar uma criança a compreender seus direitos e deveres, respeitar o próximo, valorizar o trabalho, rejeitar a violência e assumir responsabilidade por suas escolhas também faz parte da construção de uma sociedade saudável.
Uma escola pode ser, muitas vezes, o lugar onde uma criança encontra o primeiro exemplo diferente daquele que conhece em casa. Pode ser o professor que percebe o potencial de um aluno. Pode ser uma oportunidade de praticar esporte. Pode ser uma biblioteca. Pode ser uma profissão. Pode ser uma pessoa que simplesmente diga: “Você não precisa repetir a história na qual nasceu.”
Essa frase pode parecer pequena. Para uma criança, entretanto, pode representar uma mudança de destino.
A família continua sendo a primeira referência. Não existe política pública capaz de substituir completamente o abraço de uma mãe, a orientação de um pai, a presença de um avô ou o conselho de alguém que ama verdadeiramente aquela criança. Mas também não podemos abandonar uma família que enfrenta dificuldades. Uma sociedade responsável precisa proteger a criança, fortalecer a família, oferecer educação de qualidade, criar oportunidades e combater o crime.
Não se combate a criminalidade apenas prendendo criminosos. Também se combate impedindo que novas gerações sejam seduzidas pelo crime. E isso começa muito antes de um jovem cometer seu primeiro delito. Começa quando ele ainda está aprendendo o significado do certo e do errado. Começa quando alguém lhe mostra que trabalhar é motivo de orgulho. Começa quando ele descobre que o conhecimento pode abrir portas. Começa quando percebe que autoridade não significa violência. Começa quando aprende que dinheiro não compra dignidade.
Não podemos condenar uma criança pelo lugar onde ela nasceu. Uma criança não escolhe nascer em uma favela. Não escolhe nascer em uma família desestruturada. Não escolhe conviver com a violência. Não escolhe a situação econômica dos pais. Não escolhe o bairro onde vai crescer.
Mas, diante dessas circunstâncias, a sociedade pode escolher não a abandonar.
Pode oferecer uma escola melhor. Pode oferecer esporte. Pode oferecer cultura. Pode oferecer formação profissional. Pode oferecer segurança. Pode fortalecer a família. Pode criar oportunidades. Pode apresentar outros caminhos. E, acima de tudo, pode mostrar que existe uma vida possível além das fronteiras impostas pela realidade em que aquela criança nasceu.
Não podemos simplesmente olhar para um jovem que entrou no mundo do crime e perguntar: “Onde estão os seus pais?”
Precisamos também perguntar: onde estava a escola? Onde estava o Estado? Onde estava a comunidade? Onde estavam os bons exemplos? E, principalmente: o que nós fizemos quando percebemos que aquela criança estava caminhando para o abismo?
Talvez não consigamos salvar todos. Mas cada criança que conseguimos afastar da violência, do tráfico e da criminalidade já representa uma enorme vitória para toda a sociedade. Porque, por trás de cada criança, existe um futuro. Pode existir um médico, um professor, um engenheiro, um agricultor, um policial, um empresário, um trabalhador, um pai, uma mãe, um cidadão de bem. Ou, se abandonarmos essa criança, podemos estar permitindo que alguém a convença de que o crime é o único caminho possível.
Para quem acredita em Deus, existe ainda uma dimensão que não podemos ignorar. Há situações em que todas as circunstâncias parecem apontar para um determinado destino, mas alguma coisa acontece e muda o caminho. Uma pessoa aparece. Uma oportunidade surge. Uma porta se abre. Uma criança encontra alguém que acredita nela. E, muitas vezes, aquilo que parecia impossível acontece. É aí que muitos enxergam a misericórdia de Deus.
Mas a fé não pode servir de desculpa para a omissão. Podemos confiar em Deus e, ao mesmo tempo, fazer a nossa parte. Porque talvez a resposta à oração de uma criança esteja justamente na atitude de um adulto que decidiu estender a mão.
Se queremos diminuir a criminalidade amanhã, precisamos começar a trabalhar com as crianças hoje. Se queremos cidadãos honestos amanhã, precisamos ensinar honestidade hoje. Se queremos respeito amanhã, precisamos praticar o respeito hoje. Se queremos famílias fortes amanhã, precisamos fortalecer as famílias hoje. E, se queremos uma sociedade mais justa, precisamos parar de acreditar que a segurança pública começa apenas quando alguém comete um crime.
A verdadeira prevenção começa muito antes. Começa dentro de casa. Continua na escola. É reforçada pela comunidade. Precisa da presença do Estado. E depende dos exemplos que todos nós oferecemos. Porque uma criança pode até esquecer muitas palavras que ouviu durante a vida. Mas dificilmente esquecerá aquilo que aprendeu vendo os adultos fazerem.
O caráter de uma geração começa nos exemplos que a geração anterior deixou.






















