Por Neimar Fernandes (*)
O Brasil parece ter desenvolvido uma habilidade peculiar: sobreviver a escândalos sem jamais resolvê-los. A cada década, bilhões desaparecem, narrativas se multiplicam e a sociedade permanece paralisada, refém de um ciclo interminável de indignação e esquecimento.
Nos anos 90, o caso da advogada Jorgina de Freitas e do juiz Nestor José do Nascimento escancarou a fragilidade das instituições e a vulnerabilidade do sistema previdenciário. Bilhões desviados, aposentados desamparados e magistrados condenados compuseram um enredo que parecia impossível de se repetir. Mas o tempo mostrou que não se tratava de exceção, e sim de regra.
Desde a redemocratização, o país atravessou governos de diferentes matizes ideológicos, embalados por slogans e promessas de renovação. A alternância de poder, no entanto, não trouxe a alternância de práticas. Escândalos se sucederam, e o debate público foi sequestrado por uma lógica de espetáculo, em que a política se confunde com entretenimento e a imprensa muitas vezes se perde em narrativas inflamadas, deixando em segundo plano as soluções concretas para saúde, educação, segurança e emprego.
O cidadão comum, sufocado por memes, bravatas e promessas inviáveis, vê-se diante de eleições em que projetos reais quase desaparecem. O apelo emocional substitui o debate técnico, e a manipulação da opinião pública se torna estratégia recorrente. Informar-se exige esforço, e exigir preparo dos candidatos parece dar mais trabalho do que alimentar a histeria coletiva.
No fim, quem paga a conta é sempre o eleitor. Paga quando bilhões somem do INSS, quando o dinheiro não retorna, quando a impunidade prevalece e quando entra numa eleição sem clareza sobre quem realmente tem compromisso com o país. O Brasil se tornou especialista em resistir a crises, mas ainda não aprendeu a resolvê-las.
O desafio, portanto, não é apenas combater a corrupção, mas reconstruir o espaço público com seriedade, transparência e responsabilidade. Sem isso, continuaremos presos ao ciclo vicioso em que escândalos se repetem, narrativas se multiplicam e o Brasil permanece parado.























