Mário Plaka (*)
O Brasil chegou ao ponto exato onde Drummond deixou José: no frio da madrugada moral, no silêncio das instituições que já não respondem, na angústia de um povo que vê a festa da democracia terminar enquanto as luzes da confiança se apagam uma a uma. A nação caminha entre ruínas institucionais, segurando nas mãos os estilhaços do que um dia chamou de justiça, de ordem, de esperança.
E agora, Brasil? O que fazer quando o cidadão olha para o Estado e já não distingue luz de sombra, lei de arbítrio, direito de conveniência? O que fazer quando a justiça vacila como uma sentença rasurada, cambaleando entre a promessa constitucional e a prática opaca? Um país que não crê em sua justiça é um país que perdeu o eixo, o rumo e o próprio nome.
Vivemos uma era em que o povo quer abrir a porta, mas não há porta; quer gritar, mas a voz some na garganta; quer voltar às raízes, mas até Minas, símbolo de retorno e proteção, parece ter evaporado do mapa da memória nacional. Fugir para onde, se o Brasil permanece grudado à pele como destino incontornável?
Somos como o povo de Israel no exílio: carregando correntes invisíveis, empurrados para o cativeiro da incerteza, aguardando um clarão que ainda não rompeu o céu. E agora, povo brasileiro? O que fazer quando vemos a injustiça rondar nossas casas como fera noturna? O que fazer quando o jardim da esperança — esse jardim que sempre acreditamos sagrado — é pisoteado pela desordem, pelo abuso, pela arrogância de quem deveria proteger e não oprimir? O que fazer quando vemos cidadãos acorrentados, humilhados, esmagados pela força excessiva de quem deveria respeitar limites legais e não os ultrapassar?
Somos José: sem discurso, sem guarida, sem utopia. Mas, como José, também não morremos. O povo brasileiro é duro, resistente, obstinado. Marcha no escuro, mesmo sem parede para se encostar, mesmo sem cavalo para fugir a galope, mesmo sem a certeza de que o amanhecer virá.
Caminha porque parar seria aceitar o abismo. Caminha porque a Constituição, ainda que ferida, ainda que sufocada, ainda respira. Caminha porque sabe, no fundo, que nenhuma noite dura para sempre. O que nos resta? A vigilância. A cobrança. A resistência pacífica e firme. A recusa em aceitar que o Estado se torne senhor quando deveria ser servidor. E, para muitos, resta também a fé na justiça divina, essa que não se submete ao tema, ao tribunal, ao decreto, ao capricho humano.
E fica a pergunta que arde como sentença final: estamos colhendo o fruto do que plantamos, ou estamos colhendo o fruto do que permitimos que outros plantassem em nosso nome? E agora, Brasil? Para onde marchar quando o caminho parece apagado? Para onde olhar quando as instituições hesitam? Para onde correr quando o país é prisão e lar ao mesmo tempo? A resposta ainda não veio. Mas a pergunta permanece, incômoda como ferida aberta: E agora, Brasil — o que fazer?
(*) Mário Plaka é empresário e sócio fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados (Ajoia-Brasil)























