Por William Saliba (*)
A diplomacia nunca foi um exercício de vaidade. Entre as grandes potências, prevalece uma lógica simples: divergências são inevitáveis, mas canais de negociação jamais podem ser abandonados. Governos responsáveis compreendem que defender interesses nacionais exige firmeza, porém também exige pragmatismo. O Brasil, infelizmente, escolheu o caminho oposto.
A confirmação das tarifas de até 25% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros não representa apenas mais um capítulo de uma disputa comercial. Ela simboliza o fracasso de uma política externa que trocou a negociação pela retórica ideológica, a estratégia pelo improviso e o interesse nacional pela militância política.
As declarações do chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, desmontam a narrativa construída pelo Palácio do Planalto. Segundo ele, Washington tentou negociar alternativas para reduzir os atritos provocados por decisões do governo brasileiro. A resposta encontrada foi, na prática, a ausência de disposição para construir um entendimento.
Nenhum país sério trata dessa maneira seu principal parceiro econômico no hemisfério. Quando a maior economia do planeta procura estabelecer um canal de diálogo, espera encontrar interlocutores preparados para defender seus interesses com argumentos técnicos e capacidade política. O Brasil ofereceu exatamente o contrário.
Enquanto empresários aguardavam uma ofensiva diplomática em Washington, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por transformar uma delicada negociação comercial em palco para confrontos políticos. Em vez de mobilizar especialistas em comércio exterior e diplomatas experientes, preferiu alimentar embates públicos e dirigir sucessivos ataques pessoais ao presidente Donald Trump. Confundiu política externa com campanha eleitoral permanente.
O resultado dificilmente poderia ser diferente.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos passaram a questionar a política tarifária brasileira, entendendo que benefícios concedidos a países como México e Índia não eram estendidos aos produtos americanos. Em qualquer governo preocupado com seus exportadores, esse seria o momento de intensificar negociações, revisar pontos sensíveis e buscar uma saída equilibrada. Brasília escolheu o silêncio.
Não se trata de submissão, como tentam sugerir os defensores da atual política externa. Trata-se de competência administrativa. Países soberanos negociam. Países maduros protegem seus setores produtivos. Países inteligentes evitam transformar divergências comerciais em crises diplomáticas de grandes proporções.
Quem pagará essa conta não será o governo.
Serão os exportadores que perderão espaço no mercado americano. Serão produtores rurais que enfrentarão redução de competitividade. Serão indústrias que verão suas margens comprimidas. Serão trabalhadores que poderão conviver com menor produção, menos investimentos e maior insegurança econômica.
Como se isso não bastasse, começam a surgir sinais de que o desgaste poderá ultrapassar o comércio de bens. O fato de ativos estratégicos brasileiros, como o sistema Pix, passarem a integrar o radar das autoridades americanas demonstra que o conflito deixou de ser exclusivamente tarifário. Quando relações diplomáticas se deterioram a esse ponto, nenhuma área estratégica permanece completamente protegida.
O aspecto mais preocupante de toda essa crise é que ela era evitável.
Não houve desastre natural, colapso financeiro internacional ou acontecimento imprevisível. Houve uma sucessão de decisões políticas tomadas conscientemente por um governo que preferiu apostar no confronto em vez da negociação. Cada oportunidade desperdiçada de diálogo ampliou a distância entre Brasília e Washington até tornar-se praticamente inevitável a adoção de medidas de retaliação.
Uma política externa existe para abrir mercados, preservar investimentos, fortalecer alianças e reduzir riscos para a economia nacional. Quando passa a servir prioritariamente a interesses ideológicos ou à construção de narrativas políticas internas, deixa de cumprir sua função essencial.
O Brasil não fortalece sua soberania recusando-se a conversar. Também não conquista respeito internacional multiplicando discursos inflamados. Respeito entre nações é construído pela credibilidade, pela previsibilidade e pela capacidade de negociar mesmo quando existem profundas divergências.
A história demonstra que governos passam, mas os efeitos de suas decisões permanecem. As tarifas impostas pelos Estados Unidos não representam apenas uma derrota diplomática circunstancial; expõem uma condução da política externa que parece incapaz de distinguir firmeza de intransigência e soberania de arrogância.
Quando um governo transforma pontes em trincheiras, o prejuízo deixa de ser político e passa a ser nacional. E, como quase sempre acontece, a conta não chega ao gabinete presidencial. Ela desembarca nas empresas, nas indústrias, no agronegócio e, inevitavelmente, no bolso dos brasileiros.
(*) William Saliba é jornalista profissional há 56 anos e presidente do Conselho da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes e Afiliados (AJOIA Brasil)























