Por William Saliba (*)
A profunda divisão política e ideológica que marca o Brasil contemporâneo encontrou um terreno fértil — e muitas vezes hostil — nos corredores das universidades. Para docentes que decidem colocar seus nomes à disposição do escrutínio público como candidatos ao legislativo, o desafio vai muito além da busca por votos: esbarra na resistência e no silenciamento dentro das próprias salas de aula. Esse é o drama vivido pelos professores Lucas Evaristo, candidato à Câmara Federal, e Leandro Peters Heringer, candidato à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Ambos enfrentam barreiras diárias para apresentar suas propostas entre colegas de profissão e alunos.
O cenário descrito por ambos revela um ambiente acadêmico onde a liberdade de cátedra e a pluralidade de ideias vêm perdendo espaço para a polarização.
Para Lucas Evaristo, professor de turmas de Engenharia e Logística e instrutor de formação profissional para o setor ferroviário, o momento é desafiador. Ele relata que, ao longo de sua trajetória, vivenciou diversas situações de pressão velada para suprimir qualquer sinalização de posições mais conservadoras, especialmente quando o debate toca em temas sociais, culturais e identitários sensíveis.
“Essa experiência me mostrou que, em determinados ambientes universitários, a liberdade para expressar determinadas perspectivas pode ser tratada de maneira diferente conforme a orientação ideológica associada a elas. E isso está errado”, afirma Lucas. O docente faz questão de ressaltar que não defende a transformação da universidade em um palanque de propaganda política para nenhuma vertente, mas exige o fim do monopólio ideológico.
Para ele, o papel do educador exige a apresentação de todas as correntes de pensamento — sejam elas conservadoras, liberais ou progressistas —, desde que baseadas em argumentos e responsabilidade. “Minha responsabilidade é formar profissionais capazes de pensar criticamente, questionar premissas e construir suas próprias conclusões, e não reproduzir uma visão de mundo previamente determinada. Defendo uma universidade verdadeiramente plural, na qual o respeito às pessoas não exija a concordância com suas ideias e onde exista espaço legítimo para posições de direita e conservadoras”, pontua o candidato.

A blindagem de discursos
Realidade semelhante é enfrentada por Leandro Peters Heringer. Jornalista com mais de 20 anos de atuação, especialista em Comunicação, Gestão Empresarial e Marketing Político, além de doutor em Administração, Leandro coordena o curso de especialização em Comunicação Pública e Governamental da PUC Minas. Para ele, a ciência é, por natureza, feita de questionamentos, e a pluralidade de referências teóricas é um pilar inegociável tanto para o caminhar científico quanto para a formação profissional.
No entanto, o coordenador observa um movimento contrário na prática diária, notando no mercado e no corpo discente uma atitude de polarização focada apenas em “confirmar o que se pensa, e não em evoluir”. Essa tensão reflete diretamente na relação entre professor e aluno. Leandro relata que hoje existe um cuidado extremo, até mesmo no momento de corrigir avaliações, para não ser vítima de acusações de perseguição político-partidária.
Ele relembra um episódio sintomático: “Certa vez, recebi um trabalho que não estava de acordo com as diretrizes da avaliação. Era um trabalho panfletário, sem as referências técnicas e teóricas abordadas na disciplina. Há um cuidado para evitar um argumento que fique no raso de uma ideologia”.
A hegemonia de certas correntes também é sentida na estruturação dos cursos. Leandro cita o exemplo do Jornalismo, onde a crítica Escola de Frankfurt é amplamente estudada, enquanto abordagens como a comportamental são escanteadas. “Escolas americanas são tidas, não raro, como inferiores e instrumentalistas, ignorando o papel delas inclusive na consolidação de organizações e profissões da área de comunicação”, explica.
Esse filtro ideológico, segundo o professor, ultrapassa as ementas e atinge o convívio acadêmico e a produção científica. Ele lamenta que colegas com percepções políticas e visões teóricas divergentes raramente sejam convidados para eventos acadêmicos, evidenciando uma proteção a determinados discursos. “Infelizmente, até em publicações, há uma linha editorial muitas vezes restritiva a trabalhos acadêmicos e de pesquisa, em que a pluralidade é rechaçada”.
Diante desse cenário, Leandro Heringer conclui com um apelo em defesa da essência acadêmica: “Há de se valorizar periódicos, organizações e eventos que tenham a premissa real do fazer e do pesquisar sob a perspectiva da universidade, no sentido estrito”.
Enquanto dividem seu tempo entre a sala de aula e a corrida por uma cadeira na Câmara Federal e na ALMG, Lucas e Leandro personificam um debate urgente para a educação brasileira: a necessidade de resgatar as universidades como territórios livres para o choque de ideias, onde a divergência seja o motor do conhecimento, e não o estopim para a censura.























