Por Cid Miranda (*)
O Brasil amanhece todos os dias com o peso de uma pergunta que ecoa nas calçadas, nos ônibus lotados, nas filas de hospital e nos corredores públicos: até quando? Em um ano em que o eleitor será chamado a escolher seis representantes, o voto deixa de ser apenas um direito e passa a ser um gesto de resistência, uma assinatura coletiva no futuro que desejamos escrever.
O país que nasceu como um poema tropical, recitado entre rios, florestas e sonhos de grandeza, hoje parece tropeçar em suas próprias estrofes. As manchetes se repetem como um refrão amargo: fraudes contra aposentados, rombos em estatais, emendas sob suspeita, golpes digitais que transformam o Pix — símbolo de modernidade — em armadilha para os mais vulneráveis. E, no centro desse palco turvo, o recente “Caso Banco Master” surge como mais um capítulo de uma narrativa que mistura poder, dinheiro e desconfiança, com investigações que apontam para balanços inflados, títulos sem lastro e uma engenharia financeira que mais parece ficção, não fosse a dor real que causa nos cofres públicos e na confiança popular.
Mas o verdadeiro impacto desses escândalos não mora nos relatórios técnicos nem nas coletivas de imprensa. Ele vive na pele do povo. Está no trabalhador que sai de casa antes do sol nascer e volta depois de a noite cair, pagando impostos em cada conta, em cada compra, em cada passo, enquanto vê o dinheiro público escorrer por ralos invisíveis. Está no aposentado que conta centavos para comprar remédio, temendo ser a próxima vítima de uma fraude silenciosa. Está na mãe que improvisa o jantar quando os preços dos alimentos sobem, sem nunca ter participado da mesa onde se decide o destino do orçamento.
A corrupção, no Brasil, não é apenas um crime contra os cofres públicos — é uma agressão diária contra o tempo das pessoas, contra os sonhos adiados, contra a dignidade que se desgasta na espera. Cada estrada não construída vira mais horas longe da família. Cada hospital inacabado se traduz em filas, dor e incerteza. Cada escola sucateada é um futuro que chega capenga ao amanhã.
Vivemos uma espécie de balé dos privilégios, em que os poderosos dançam sobre um palco iluminado, enquanto a plateia, na penumbra, sustenta o espetáculo com o próprio suor. O Legislativo, muitas vezes percebido como um tabuleiro de negociações orçamentárias, e o Judiciário, por vezes envolto em decisões que parecem se perder nos labirintos da morosidade, alimentam a sensação de que a democracia anda ofegante, pedindo água no meio da travessia.
Ainda assim, algo pulsa sob a superfície da descrença. Manifestações, caminhadas, vozes que se levantam nas redes e nas ruas mostram que a apatia não venceu. Há um fio de esperança que se estica, frágil, mas resistente, ligando a indignação ao desejo de mudança. É nele que se apoia a crença — quase teimosa — de que a política não precisa ser sinônimo de desilusão, de que ainda é possível separar o joio do trigo em meio ao ruído ensurdecedor dos escândalos.
Neste ano decisivo, o eleitor não escolhe apenas nomes. Escolhe rumos. Escolhe se aceita carregar, por mais quatro anos, o peso de um sistema que parece sempre cair sobre os mesmos ombros. Cada voto carrega a memória dos que vieram antes e a responsabilidade com os que ainda virão. É um gesto pequeno na urna, mas imenso na história. Porque, no fim das contas, a maior fraude que um país pode cometer é desistir de si mesmo.
O Brasil continua sendo um poema — inacabado, rabiscado, às vezes manchado. Mas poemas podem ser reescritos. E, desta vez, a caneta está nas mãos de milhões. Que não falte coragem para traçar versos mais justos, nem voz para recitá-los em alto e bom som.





















