Por Mário Plaka (*)
Há poucos dias, na minha cidade, faleceu um gari. Um servidor essencial, daqueles que fazem a cidade funcionar todos os dias, faça sol ou chuva. Nem a empresa, nem a prefeitura publicaram uma nota sequer de pesar. Silêncio absoluto.
Caminhando pela cidade, alguns garis, indignados, me abordaram. Disseram algo que ecoa como um soco no estômago: “A prefeitura sempre publica notas quando morre alguém importante. Nós, garis, somos invisíveis. Mas se a gente parar, a cidade inteira vai sentir nossa falta”.
Eles pediram que eu fizesse uma matéria. Eu preferi não fazê-la naquele momento, justamente para não alimentar narrativas sensacionalistas ou disputas de grupos políticos. Mas o episódio escancara algo muito maior: a inversão brutal de valores que tomou conta da sociedade brasileira.
Vivemos em um país onde se esquece quem sustenta o cotidiano e se exalta quem vive do espetáculo. Isso não começa na política — começa dentro de casa. Irmãos que não valorizam irmãos, casais que não se enxergam, famílias que dão mais atenção a quem está fora do que a quem está ao lado. Engolimos sapos de gente que nunca mais veremos e despejamos nossas frustrações em quem caminha conosco todos os dias.
Essa lógica se repete na sociedade. A mídia escolhe quem merece luto, quem merece palco e quem deve permanecer invisível. Artistas, jogadores de futebol e celebridades recebem uma babação diária, como se fossem deuses modernos. Jogadores que ganham cifras milionárias, que não torcem para o time — torcem para o dinheiro — e que raramente devolvem algo estrutural às comunidades que os sustentam.
Quando devolvem, muitas vezes é no formato do espetáculo: uma foto, um vídeo, uma manchete. Um jogador paga R$ 100 por cinco balas de uma criança e isso vira notícia nacional. Está errado ajudar? Não. O problema é transformar a ajuda em marketing, sem qualquer compromisso real com o futuro daquela criança, que continuará invisível depois que as câmeras forem embora.
O mesmo vale para programas de televisão que “constroem casas”, “mudam vidas” e emocionam o público, mas que, segundo inúmeras denúncias, entregam cenários frágeis, soluções improvisadas e histórias que não se sustentam fora do roteiro. Resolve-se o programa, não a vida de ninguém.
Enquanto isso, o trabalhador comum segue esmagado. Quem lava carro, carrega caminhão, trabalha em turnos exaustivos, paga ingressos caros para ver um futebol cada vez mais pobre, enquanto é desrespeitado dentro e fora de campo. Um esporte bilionário sustentado pela exploração emocional e financeira do povo.
Tudo isso desemboca na política. Tudo.
Governos concedem isenções fiscais absurdas a grandes empresas sob o discurso de geração de emprego, enquanto sabemos que, na prática, o que existe é exploração da mão de obra e precarização do trabalho. O trabalhador virou quase um refém: ou aceita condições indignas ou não come. E o assistencialismo entra como ferramenta de controle social e promoção política, não como solução estrutural.
Por isso, é preciso dizer com todas as letras: político não é super-herói. É servidor público. Deve servir e servir bem. E para isso, precisamos de um Legislativo forte, com leis claras, fiscalização de verdade e coragem para enfrentar interesses econômicos e midiáticos.
Este é um ano eleitoral. E o povo brasileiro precisa acordar. Precisa parar de consumir espetáculo como se fosse consciência. Precisa questionar a mídia, desconfiar da caridade filmada, olhar para quem realmente mantém o país de pé — o trabalhador invisível.
Enquanto a sociedade continuar chorando por celebridades e ignorando quem limpa suas ruas, descarrega seus caminhões e sustenta sua cidade, o absurdo continuará sendo tratado como normal.
A pergunta é simples e urgente: Até quando o povo vai continuar engolindo tudo isso em silêncio?























