Por Mário Plaka (*)
Nos últimos dias, ao observar os desdobramentos da crise venezuelana, veio-me à memória, quase de forma irônica, o filme A Fuga das Galinhas. Não pelo humor, mas pela lógica da debandada: quando o sistema começa a ruir, os responsáveis tentam escapar antes que a conta chegue. É exatamente isso que começa a se desenhar na Venezuela. Pessoas diretamente ligadas ao regime chavista, cúmplices de perseguições, violações de direitos humanos e crimes contra a própria população, já buscam rotas de fuga. Alguns países da região, como o Paraguai, entenderam o risco e agiram com antecedência, fechando ou endurecendo suas fronteiras para não receber indivíduos vinculados ao regime de Nicolás Maduro.
O Brasil, no entanto, segue em silêncio. Um silêncio perigoso.
É preciso deixar algo muito claro: há uma diferença moral, jurídica e humanitária entre acolher refugiados perseguidos e abrir as portas para perseguidores. O Brasil recebeu, corretamente, milhares de venezuelanos que fugiram da fome, da repressão e do autoritarismo. Essas pessoas são vítimas. Mas agora o cenário muda. O que se anuncia não é um novo fluxo de oprimidos, e sim a possível entrada de agentes do próprio sistema opressor, incluindo civis ligados ao aparato político e, sobretudo, militares e operadores do regime.
Essas pessoas não estão aptas a se estabelecerem em outro país como se nada tivesse acontecido. Carregam uma marca — e é marca mesmo — deixada pela perseguição de inocentes, pelo uso da força estatal contra o próprio povo e pela sustentação de uma ditadura. Ao recebê-las sem critérios rigorosos, o Brasil corre um risco social real: o de importar conflitos, tensões e até crimes de revanche. Muitos dos venezuelanos que hoje vivem aqui foram diretamente perseguidos por esse mesmo grupo que agora tenta fugir. Colocá-los no mesmo espaço social é uma irresponsabilidade anunciada.
Há ainda um risco maior, que não pode ser tratado como paranoia: a reorganização política e ideológica desses agentes fora da Venezuela. Históricamente, regimes autoritários não se dissolvem; eles se reorganizam. A possibilidade de articulação com grupos já alinhados ao chavismo, à esquerda autoritária regional, incluindo conexões com Cuba e remanescentes ideológicos, não pode ser descartada. Isso abre margem para a formação de células políticas radicalizadas, ações clandestinas, apoio logístico ou até tentativas de desestabilização, seja no país de origem, seja nos países que os acolherem.
Se eu estivesse hoje no Congresso Nacional, como deputado ou senador, esse tema já estaria no centro do debate. Pressão institucional sobre o governo federal não é opcional, é dever. O Parlamento precisa exigir critérios claros, investigação prévia, cooperação internacional e filtros rigorosos para qualquer entrada de indivíduos ligados ao regime venezuelano. Não se trata de xenofobia, trata-se de segurança nacional, justiça histórica e responsabilidade com a sociedade brasileira.
O Paraguai fez sua parte. Outros países estão atentos. O Brasil não pode repetir o erro de agir apenas quando o problema já está instalado. Quando militares, operadores políticos e cúmplices de um regime autoritário começam a fugir, não é turismo, não é refúgio humanitário: é retirada estratégica. Ignorar isso é abrir espaço para um problema social sério, silencioso no início, mas explosivo no futuro.
A história sempre cobra dos omissos. E, neste caso, o preço pode ser alto demais para pagar depois.























