Por Mário Plaka (*)
Brasília é o ponto de partida. Basta sair do Plano Piloto, atravessar os cartões-postais do poder e observar os arredores da capital para perceber a pobreza, a desigualdade e o abandono. A miséria não está apenas nos lugares onde historicamente se aponta o dedo; ela convive lado a lado com os palácios. Eis a verdadeira análise de conjuntura: uma vitrine organizada para a fotografia oficial, enquanto a realidade desorganizada sufoca o povo.
Nesse cenário, milhões são gastos em publicidade institucional. A propaganda oficial vende um país que não corresponde ao que se vive nas filas de hospital, nas escolas públicas ou nas ruas sem segurança. Televisões abertas recebem altas verbas para repetir uma narrativa de estabilidade e avanço. Mas quem vive o Brasil real sabe que não é assim.
Na saúde, há casos de pacientes internados três vezes para realizar uma cirurgia que nunca aconteceu. Faltou médico, faltou gestão, sobrou sofrimento — em um país que arrecada cerca de R$ 2,8 trilhões por ano. Na educação, pais de crianças com necessidades especiais imploram por professores de apoio garantidos por lei, mas que nunca chegam. A legislação existe, o dinheiro entra, mas a estrutura não aparece. No emprego e na renda, o sufoco é constante: imposto sobre imposto, taxa sobre taxa. O trabalhador paga para trabalhar, o empresário paga para manter as portas abertas. Muitos fecham, outros vão embora. O Estado, que deveria incentivar quem produz, acaba sufocando quem empreende.
O cotidiano é marcado por cobranças sem fim: compra-se um carro, mas ele não é seu sem imposto; para rodar, paga-se IPVA; para circular, pedágio; para estacionar, zona azul; e ainda há o risco do flanelinha. Onde está a segurança pública? Onde está o Estado que arrecada, mas não protege? Enquanto isso, faltam médicos nos hospitais e professores nas escolas, mas sobram gastos milionários no cartão corporativo do governo federal — parte deles protegidos por sigilo de 100 anos. Em uma República, isso não é transparência, é blindagem. Colocar informações sob sigilo centenário não protege o Estado, esconde do cidadão. É como dizer: “Você paga, mas não precisa saber.”
O chamado Portal da Transparência muitas vezes se transforma em portal da escuridão: publica-se o título, mas esconde-se o conteúdo; divulga-se o resumo, mas protege-se o detalhe. Transparência sem fiscalização não é transparência, é maquiagem institucional. E isso não ocorre apenas no governo federal: vai das prefeituras às câmaras municipais, dos estados à União. Publica-se o mínimo obrigatório, esconde-se o essencial.
O Grupo Ouvidoria Popular atua com um tripé claro: crítica, elogio e sugestão. Ao receber uma denúncia, busca-se o responsável direto, dá-se oportunidade de resposta, procura-se solução administrativa. Só depois, se necessário, recorre-se à Justiça — ainda que a insegurança jurídica crescente corroa a confiança nas instituições. Não se trata de prazer em confrontar, mas de dever de cidadania.
O Brasil não está falindo por falta de arrecadação. Está adoecendo por falta de prioridade, gestão e responsabilidade com o dinheiro público. Governar não é fazer propaganda; é garantir cirurgia realizada, professor de apoio presente, segurança nas ruas e ambiente saudável para trabalhar e empreender.
E este é um ano eleitoral. Cabe ao eleitor não votar por emoção momentânea, marketing bem produzido ou promessa repetida. É preciso escolher quem tenha coragem de enfrentar privilégios, revisar gastos, abrir dados sem sigilo conveniente e fiscalizar cada centavo arrecadado. Se continuarmos elegendo mal, continuaremos reclamando do mesmo sistema. Se a carapuça serviu, vista até os pés — mas vista também a responsabilidade de mudar.
O Brasil real não cabe na propaganda. E a verdade não pode ficar cem anos escondida.























