Por Mário Plaka (*)
Há algo errado acontecendo — e não dá mais para fingir que não vemos. Casos de abandono se repetem: crianças deixadas, idosos esquecidos, famílias desfeitas, compromissos rompidos sem esforço algum para manter. Pessoas abandonando pessoas. Pessoas abandonando tudo aquilo que um dia disseram que era importante.
Isso não é coincidência. É sintoma.
Estamos vivendo um esgotamento coletivo — emocional, social e moral. O brasileiro está cansado. Cansado de lutar, cansado de não ver resultado, cansado de carregar peso sozinho. E quando o cansaço chega ao limite, muitos fazem a escolha mais fácil: desistem.
Desistem de relações.
Desistem de responsabilidades.
Desistem de si mesmos.
Mas existe um ponto central que precisa ser encarado com clareza: o abandono não começa no ato de ir embora. Ele começa quando a palavra perde valor.
Quando alguém promete e não cumpre, algo se quebra.
Quando alguém desiste na primeira dificuldade, algo se enfraquece.
Quando alguém passa a tratar pessoas como coisas, algo se perde.
E é exatamente isso que estamos vendo: uma sociedade onde tudo parece descartável.
Por isso, a mudança não começa com grandes discursos. Começa com atitudes simples — e raras.
Cumprir o que se promete.
Parece básico, mas não é. Quando uma pessoa cumpre a própria palavra, ela se fortalece. Ela se torna confiável. Ela se respeita. Existe realização nisso, porque ela deixa de ser levada pelas circunstâncias e passa a ser firme nas suas decisões.
Outro ponto essencial: permanecer quando é difícil.
Hoje, desistir virou automático. Mas a vida real exige resistência. Relações exigem esforço. Compromissos exigem firmeza.
Permanecer não é fraqueza. É resiliência.
Isso não significa aceitar tudo ou viver preso ao que faz mal. Mas significa não transformar tudo em descartável. Não tratar pessoas, histórias e conquistas como se fossem objetos de uso momentâneo.
Porque quando tudo vira descartável, a sociedade também se torna frágil.
Diante disso, a pergunta que fica não é apenas “o que está acontecendo?”
A pergunta é: o que eu posso fazer?
E a resposta é mais simples — e mais difícil — do que parece:
Não reproduzir o problema.
Ser alguém que cumpre o que fala.
Ser alguém que não abandona com facilidade.
Ser alguém que valoriza o que levou tempo para construir.
Pode parecer pouco. Mas não é.
Em um tempo onde desistir virou regra, permanecer virou exceção.
E talvez seja exatamente aí que começa a mudança: quando alguém decide não ser mais um a abandonar.























