Por Mário Plaka (*)
Errar faz parte do amadurecimento humano. O problema não está no erro em si, mas na ausência de consequência. Onde não há responsabilização, não há aprendizado; onde não há correção, não há crescimento. Esse fenômeno tem nome: impunidade. E, no Brasil, ela se tornou um traço estrutural da sociedade.
Engana-se quem pensa que essa cultura nasce nos tribunais. Ela começa dentro de casa. Por décadas, fomos empurrados para uma lógica distorcida, na qual autoridade passou a ser confundida com violência e correção foi tratada como trauma. Não se trata de defender práticas abusivas, mas de resgatar a autoridade moral: coerência entre palavra e ação, limites claros e responsabilidade pelos próprios atos. Autoridade não grita, não bate, não humilha. Autoridade vive o que fala.
Quando adultos dizem uma coisa e fazem outra, quando prometem consequências e não cumprem, quando terceirizam a educação para a escola, para o Estado ou para a internet, ensinam silenciosamente que nada acontece com quem erra. Esse aprendizado malformado amadurece em rebeldia sem causa e indisciplina sem consequência.
Nesse vácuo, prosperou uma pedagogia que relativizou hierarquias e questionou permanentemente a autoridade, vendendo como “pensamento crítico” o que muitas vezes foi a desconstrução deliberada do respeito, da disciplina e da responsabilidade individual. O resultado foi uma geração treinada para contestar tudo, mas assumir nada: filhos que não respeitam pais, alunos que não respeitam professores, jovens que confundem direitos com ausência de deveres e adultos que rejeitam qualquer limite ou punição.
Esse modelo, implantado sobretudo na educação básica municipal, enfraqueceu a família, esvaziou a autoridade e normalizou a irresponsabilidade. O efeito colateral — ou talvez o objetivo — foi a formação de cidadãos que reproduzem na vida adulta a lógica aprendida na infância: errar sem consequência, desafiar sem responsabilidade, exigir direitos sem aceitar deveres. Não é coincidência. É método. E esse método alimentou o câncer da impunidade que hoje corrói o Brasil.
Com o tempo, a rebeldia virou virtude, a transgressão virou identidade e a irresponsabilidade virou estilo de vida. Primeiro, o desrespeito ao próprio corpo; depois, o desprezo pela família; em seguida, o ataque à fé, à hierarquia e à ideia de limite. Quem não se respeita, não respeita ninguém. O respeito começa no autoconhecimento: saber quem se é, quais são seus limites e responsabilidades. Quando isso se perde, tudo vira confusão — e a confusão vira regra.
Vivemos hoje em um país onde ninguém respeita ninguém, porque a maioria não aprendeu a se respeitar. A família deixou de ser base estrutural, a religião foi ridicularizada, a ética virou opinião pessoal e a lei passou a ser interpretada conforme a conveniência — inclusive por quem deveria guardá-la. Basta abrir qualquer rede social ou portal de notícias: escândalos financeiros, corrupção institucionalizada, roubo de aposentados, aparelhamento de estatais, conivência explícita com o crime. Uma miscelânea diária de impunidade que transmite uma mensagem cruel: o crime compensa, desde que você esteja do lado certo do poder.
O absurdo se completa quando criminosos violentos são soltos e tratados como “vítimas do sistema”, enquanto cidadãos comuns, denunciantes e críticos são perseguidos e punidos com rigor desproporcional. Crimes graves recebem complacência; crimes menores — ou até inexistentes — são tratados como ameaças ao Estado. É a inversão total de valores.
A lei existe, mas sua aplicação é seletiva, pessoal e ideológica. Impunidade sobre impunidade, em um ciclo que se retroalimenta. E nada disso surge do nada: começa em casa, na ausência de correção, na desistência de educar, na covardia de impor limites. Uma sociedade que não ensina responsabilidade forma adultos que não aceitam consequências — e adultos que não aceitam consequências destroem instituições.
Talvez a frase mais dura — e mais verdadeira — do Brasil atual seja esta: denunciar o crime está se tornando mais perigoso do que praticá-lo. Essa realidade não caiu do céu; foi construída tijolo por tijolo, omissão por omissão, silêncio por silêncio.
Por isso, antes de apontar apenas para políticos, juízes ou instituições, o convite é ao leitor: olhe para o espelho. Como você educa? Como você age? Sua palavra vale o mesmo que suas atitudes? Você corrige ou passa a mão na cabeça? Exige ou terceiriza a responsabilidade?























