Por Mário Plaka (*)
Existe uma pergunta que precisa incomodar: estamos investindo na saúde ou estamos sustentando a doença?
Não é uma discussão técnica. É uma escolha política. E, mais do que isso, é uma escolha moral.
Falo com propriedade de quem já esteve dentro da máquina pública, coordenando limpeza urbana, parques, jardins e vias públicas em uma cidade de porte médio, com mais de 100 mil habitantes e circulação constante de pessoas. Em uma região integrada, como o Vale do Aço, onde uma cidade impacta diretamente a outra em questão de minutos, não existe erro isolado — existe efeito dominó.
E é justamente aí que mora o problema.
Quando uma cidade permite lixo espalhado nas ruas, coleta irregular, descarte incorreto de resíduos domiciliares e hospitalares, ou ainda caminhões despejando chorume pelas vias, ela não está apenas sendo negligente com a limpeza. Ela está produzindo doença.
Isso não é figura de linguagem. É literal.
É a criança que brinca perto de um esgoto a céu aberto.
É o idoso com imunidade baixa exposto a um ambiente contaminado.
É a mulher que sai de casa, vulnerável, e pisa em um resíduo tóxico sem sequer perceber.
Isso é doença sendo construída, silenciosamente, todos os dias.
E aí vem a contradição: enquanto o básico é ignorado, anuncia-se com orgulho a compra de ambulâncias, a ampliação de hospitais, a criação de novas estruturas de atendimento. Tudo isso é importante? Claro que é. Mas isso não é investir na saúde. Isso é investir na doença.
Porque já chegou tarde.
A prevenção não aparece em placa de inauguração. Não rende foto, não gera manchete, não cria espetáculo. Mas é ela que evita o colapso. É ela que reduz internações, que diminui filas, que salva recursos públicos e, principalmente, vidas.
Agora, o que mais incomoda: muitas vezes existe um sistema que se acomoda nisso. Uma engrenagem onde a doença movimenta interesses, estruturas e até status. Uma lógica onde tratar virou mais valorizado do que evitar.
E isso precisa ser dito com todas as letras.
Não se constrói uma sociedade saudável com base em hospital cheio. Se constrói com rua limpa, com coleta eficiente, com saneamento funcionando, com respeito ao meio ambiente e com gestão responsável.
Cidade suja não é descuido. É projeto mal executado.
E projeto mal executado na base sempre estoura na ponta — dentro do hospital.
A conta chega. E chega cara.
A pergunta continua de pé, e precisa ecoar em cada cidadão, em cada gestor, em cada eleitor:
Estamos cuidando da saúde… ou apenas financiando a doença?























