Por Mário Plaka (*)
Todos os anos o brasileiro assiste ao mesmo espetáculo: Black Friday, saldões, ofertas “históricas”, preços “nunca vistos”. A propaganda invade televisão, rádio, internet e outdoors. Milhões de reais são investidos para convencer o povo de que está economizando. Mas a pergunta que quase ninguém faz é simples e incômoda: quem paga essa conta?
A resposta é direta: o próprio consumidor. Uma única inserção de 30 segundos no horário nobre da TV aberta pode custar de 800 mil a mais de 1 milhão de reais. Campanhas completas chegam facilmente a 10, 20 ou 30 milhões. Esse dinheiro não sai do lucro do empresário: é embutido no preço do produto. Ou seja, o brasileiro paga caro para assistir à propaganda que o convence de que está fazendo um bom negócio. E muitas vezes não está.
A chamada Black Friday brasileira virou método de ilusão. Preços sobem dias ou semanas antes, para depois “cair” artificialmente. O desconto é narrado, não praticado. Quem presta atenção percebe; quem confia, paga. Isso não é exceção, é modelo de mercado sustentado pela força da publicidade — não pela honestidade da oferta.
E aqui surge a contradição que quase ninguém discute: se grandes redes, montadoras, varejistas e supermercados gastam milhões em mídia nacional, por que não investem de forma consistente nas mídias regionais e locais? Por que não fortalecem rádios comunitárias, jornais regionais, publicidade direcionada por bairro e município, comunicação que fala diretamente com quem consome? Com uma fração do que se gasta na grande mídia, seria possível reduzir custos, oferecer descontos reais, movimentar a economia local, gerar empregos, fortalecer o comércio regional e contribuir para o desenvolvimento das cidades.
Mas isso não interessa ao topo do sistema. Para a elite econômica, a propaganda nacional não é apenas venda — é status, poder e autopromoção. É aparecer no mesmo espaço, no mesmo horário, no mesmo palco. O resultado prático pouco importa, desde que a imagem seja preservada.
Enquanto isso, na base da pirâmide, o cenário é outro. O vendedor de loja, antes valorizado e comissionado, hoje é tratado como custo. O salário é baixo, a comissão quase inexistente, a meta impossível. O mérito foi eliminado. Não se investe mais em quem vende, mas se exige resultado como se nada tivesse mudado. Depois reclamam que o atendimento caiu. Caiu porque tiraram o incentivo e a dignidade do trabalho.
O mesmo ocorre nos grandes supermercados e redes de serviços. O setor cresce, lucra e se expande, mas paga mal e explora muito. Em seguida, afirma que “não encontra mão de obra”. Não encontra porque não oferece condições justas. O trabalhador não desapareceu — apenas cansou de ser desvalorizado.
Nesse jogo, todos perdem: o consumidor é enganado, o trabalhador é explorado, o vendedor é desmotivado e a economia local é sufocada. Quem ganha são poucos, protegidos por uma engrenagem que envolve grandes empresas, grande mídia e uma narrativa que normaliza o absurdo.
Talvez o maior problema seja que muita gente ainda não está atenta ao que acontece ao seu redor. A correria do dia a dia, o cansaço e a pressão fazem com que o povo aceite como normal aquilo que é injusto.
Este texto não é contra o comércio, nem contra quem empreende. É a favor do consumidor consciente, do trabalhador respeitado, do vendedor valorizado e de um modelo econômico que funcione para quem realmente sustenta o país. Entender o jogo é o primeiro passo para não continuar pagando por ele.























