Mário Plaka (*)
O título deste comentário parte de uma percepção cada vez mais presente no debate público: a de que, em determinados contextos, a comunicação institucional passa a ocupar um espaço central na construção da imagem governamental, especialmente quando há um distanciamento entre a narrativa oficial e a realidade percebida pela população.
Nesse sentido, também se sustenta a ideia de que a propaganda pode se tornar o “braço visível de um governo invisível” — isto é, a face mais exposta de um conjunto de decisões, ações ou omissões que, para parte da sociedade, não se traduzem em melhorias concretas no cotidiano.
Em cenários de insatisfação social, cresce a percepção de que o investimento em comunicação e propaganda se intensifica, enquanto a entrega prática de resultados nem sempre acompanha o mesmo ritmo. Nesse ponto, surge um debate sensível: quando a comunicação deixa de ser apenas informativa e passa a ser vista como tentativa de sustentar uma imagem desconectada da realidade.
Esse espaço de narrativas políticas, quando usado de forma excessiva para sustentar percepções positivas em contraste com dificuldades reais, coloca em xeque a credibilidade da comunicação governamental. O que a população passa a observar não é apenas o discurso, mas a coerência entre o que se anuncia e o que se vive.
É nesse ponto que entra um novo elemento decisivo: a transformação provocada pelas redes sociais e pela comunicação digital. Hoje, a maior parte da população tem acesso a celulares capazes de filmar, registrar e divulgar em tempo real o cotidiano das cidades. Isso reduz a distância entre a versão oficial e a realidade vivida.
Imagens de ruas malcuidadas, obras inacabadas, dificuldades na saúde pública e limitações na educação passam a circular com rapidez, criando um contraponto direto às narrativas institucionais. Esse fenômeno amplia o escrutínio social e dificulta a manutenção de discursos que não se sustentam na experiência concreta da população.
Nesse ambiente, o cidadão deixa de ser apenas receptor da informação e passa também a ser produtor de registros e evidências. Isso altera profundamente a dinâmica da comunicação pública, que agora disputa espaço com múltiplas vozes, registros e interpretações.
É nesse contexto que o debate sobre propaganda, comunicação institucional e desinformação se torna mais complexo. Se, por um lado, existe a preocupação legítima com fake news, por outro também cresce a percepção de que há uma tensão constante entre narrativa oficial e realidade percebida.
No fim, o que está em jogo não é apenas a comunicação de um governo, mas a confiança pública. Quanto maior a distância entre discurso e experiência cotidiana, maior tende a ser o conflito entre imagem construída e realidade vivida.























