Por Mário Plaka (*)
Você já parou para observar quem está falando, como fala, o que defende e quem está ao seu lado? Já prestou atenção às expressões faciais, à postura corporal, ao tom de voz e à maneira como alguém reage quando é contrariado? Já comparou o discurso de um político com suas atitudes, suas alianças e os resultados de suas decisões? Ou será que você se deixa convencer pela eloquência, pela promessa, pelo espetáculo e pela história que gostaria de ouvir?
Uma coisa precisa ficar clara: a expressão facial e a linguagem corporal podem despertar perguntas, mas não comprovam caráter, intenção ou culpa. São as atitudes verificáveis, as escolhas e os fatos que permitem avaliar uma pessoa com responsabilidade.
E as companhias? Elas não condenam ninguém por associação, mas podem revelar afinidades, interesses e projetos que merecem ser examinados. Afinal, você observa apenas quem está no palco ou também quem está nos bastidores? Presta atenção somente naquele que discursa ou procura saber quem o aconselha, quem o financia, quem o apoia e quem poderá se beneficiar de suas decisões?
Foi por isso que a declaração de Lula mereceu ser examinada.
Em 22 de outubro de 2026, durante uma transmissão ao vivo com o deputado federal André Janones, em plena mobilização eleitoral, Lula afirmou que, depois da vitória, seria necessário discutir um “novo jeito de governar” e que o Brasil “nunca mais será o mesmo”. A transmissão estava inserida na mobilização de apoiadores, com participação de figuras públicas e influenciadores.
Agora, vamos às perguntas: por que anunciar uma mudança tão ampla sem explicar claramente como ela acontecerá? O que significa, na prática, esse novo jeito de governar? Ampliar a participação popular? Mobilizar movimentos sociais para pressionar o Congresso? Mudar a comunicação do governo? Ou promover uma transformação mais profunda na relação entre o Executivo e as instituições? Se a proposta é legítima, por que não detalhá-la? Se é apenas uma estratégia eleitoral, por que não dizer isso com clareza?
Seria uma ditadura? Um estado de sítio? Uma ruptura institucional? A declaração, isoladamente, não permite afirmar nada disso. Mas também não dispensa o cidadão de perguntar, investigar e acompanhar os próximos passos.
Você sabe quais são os limites constitucionais do presidente? Sabe que mobilizar pessoas é legítimo, mas que manifestações não autorizam ninguém a passar por cima da Constituição? Se um governante promete mudanças profundas, não é razoável exigir que explique quais serão, quem as conduzirá e a quem servirão? E se amanhã suas ações contradisserem suas palavras, você terá coragem de reconhecer o que está diante dos seus olhos, mesmo que tenha votado nele?
O problema brasileiro não é apenas a existência de políticos que fazem promessas. É a disposição de parte da sociedade para acreditar sem conferir, defender sem questionar e atacar sem conhecer os fatos. Quantas vezes você já viu um político prometer defender os pobres enquanto suas decisões produziam resultados questionáveis? Quantas vezes ouviu alguém falar em liberdade, mas demonstrar intolerância diante de uma opinião contrária? Quantas vezes a moralidade foi usada como discurso enquanto as atitudes exigiam explicações? E por que aquilo que parece inaceitável quando praticado pelo adversário se torna tolerável quando vem do político de sua preferência?
Não basta olhar para Lula. O mesmo critério vale para Bolsonaro e seu filho Flávio, ministros, parlamentares, empresários, líderes religiosos e qualquer pessoa que pretenda influenciar a sociedade. Você examina todos com a mesma régua ou reserva sua indignação apenas para os adversários? Quando seu político erra, você cobra ou procura uma justificativa? Quando o adversário acerta, você reconhece ou finge que não viu? Afinal, você defende princípios ou apenas o grupo ao qual pertence?
É preciso parar de confundir simpatia com caráter, discurso com compromisso e popularidade com competência. A pessoa pode falar bonito e agir mal; pode demonstrar segurança e estar equivocada; pode andar cercada de gente influente e não ter razão. O que importa é confrontar o que ela diz com o que faz. Quem está ao seu lado? Quais interesses compartilham? Que decisões tomaram juntos? Que documentos existem? Que resultados podem ser comprovados? E o que ainda é apenas suspeita, interpretação ou propaganda? Quem não faz essas distinções corre o risco de trocar a análise pela paixão e a consciência pela torcida.
Talvez Lula nunca tenha enganado todos os brasileiros. Talvez muitos tenham interpretado seus discursos conforme as próprias expectativas, ignorado sinais que mereciam investigação ou depositado nele uma confiança que os fatos não justificavam.
Mas será justo dizer que todos foram enganados? Não existem pessoas que conhecem sua trajetória e apoiam conscientemente seu projeto? Não há também quem o rejeite por razões que precisam ser examinadas com o mesmo rigor? O eleitor não precisa concordar comigo. Precisa pensar por conta própria. E eu também preciso estar disposto a rever minhas conclusões diante de fatos novos.
A questão, portanto, não é adivinhar o pensamento de Lula pela expressão do rosto, pelo tom de voz ou pela postura diante da câmera. É perguntar o que ele efetivamente anunciou, por que escolheu aquelas palavras, qual era o público daquela transmissão, quem estava ao seu lado e quais medidas concretas poderão confirmar ou desmentir as interpretações levantadas. O que foi dito? O que ficou sem explicação? O que pode ser comprovado? O que precisa ser investigado? E, principalmente, o que você fará quando as respostas contrariarem aquilo em que acredita?
Ninguém deveria entregar a própria consciência a um político. Nenhum discurso merece confiança automática, nenhuma aliança deve ser ignorada e nenhuma acusação deve ser aceita sem provas. Você está observando a realidade ou apenas enxergando aquilo que deseja? Está analisando os fatos ou repetindo a opinião de quem pensa como você? Está escolhendo representantes ou procurando ídolos para defender?
Porque o maior perigo não é apenas ser enganado por alguém. É participar do próprio engano, fechar os olhos para os fatos e depois culpar os outros pelas consequências.
(*) O analista político e cronista Mário Plaka é sócio fundador da Associação Brasileira de Jornalistas Independentes (AJOIA Brasil)























