Por Mário Plaka (*)
Eu posso falar do que vivi. Não falo por ouvir dizer. Não falo baseado em narrativa de internet. Eu conheci a esquerda por dentro.
Fui militante do PT. Participei da direção do partido. Vivi o nascimento daquela estrutura política ainda nos tempos em que trabalhei em São Paulo. Quando vim para Minas Gerais, continuei militando, organizei campanhas, apoiei candidaturas, disputei eleição interna e cheguei a vencer dentro do partido. Depois também passei pelo PV, onde fui presidente, e tive contato com outras siglas da esquerda, como o PSB.
E foi exatamente por conhecer os bastidores que eu me afastei.
Porque uma coisa era o discurso diante do povo.
Outra coisa completamente diferente era aquilo que acontecia internamente.
O discurso era de justiça social, democracia, igualdade, defesa do povo e moralidade. Mas nos bastidores o ambiente era outro. Vaidade, interesses, acordos e conveniências políticas ocupavam muitas vezes o espaço daquilo que era pregado publicamente.
E é justamente por ter vivido isso que determinadas cenas políticas me causam indignação.
Ao assistir à posse de Nunes Marques no Tribunal Superior Eleitoral, vendo abraços, sorrisos, confraternizações, samba, pagode, políticos e autoridades que publicamente vivem trocando acusações graves agindo como velhos amigos, eu tive a mesma sensação que venho repetindo há tempos:
O Brasil parece ter virado um hospício.
Diante das câmeras, um chama o outro de fascista.
O outro responde chamando de ladrão.
Nas redes sociais, inflamam militâncias.
Na imprensa, alimentam divisões.
Na tribuna, parecem inimigos irreconciliáveis.
Mas termina o espetáculo público e surgem os abraços, os sorrisos e a confraternização.
E uma das cenas que mais causou revolta em grande parte da direita foi ver Michelle Bolsonaro abraçando aquele que muitos conservadores enxergam como símbolo da perseguição política sofrida por Jair Bolsonaro e por seus apoiadores.
Para muitos brasileiros que acompanham esse cenário há anos, aquela imagem foi recebida como um choque. Porque Bolsonaro, para milhões de brasileiros, representa muito mais do que uma liderança política.
Ele representa honestidade.
Representa, para seus apoiadores, um governo que combateu esquemas históricos de corrupção e que não deixou marcas associadas aos grandes escândalos que o Brasil conheceu ao longo das últimas décadas.
Representa também valores que seus eleitores consideram fundamentais: Deus, pátria, família, liberdade e trabalho.
Foi um presidente que repetiu inúmeras vezes que “Deus está acima de tudo”, e isso criou uma conexão emocional profunda com milhões de brasileiros que enxergam nele alguém que fala aquilo que acredita, independentemente das consequências políticas.
Por isso, para muitos apoiadores, Bolsonaro não é apenas um nome eleitoral. Ele se tornou um símbolo de resistência contra um sistema político e institucional que essas pessoas acreditam perseguir valores conservadores e patrióticos.
E exatamente por isso aquela cena do abraço gerou tamanho desconforto.
Porque para muitos brasileiros da direita, aquilo não foi interpretado apenas como um gesto protocolar. Foi visto como uma desonra diante do sofrimento político, jurídico e humano que enxergam ter sido imposto a Bolsonaro e ao campo conservador.
Da mesma forma, ver Luiz Inácio Lula da Silva entrando de mãos dadas com Cármen Lúcia também gerou questionamentos profundos em parte da população.
Porque o povo observa gestos.
O povo interpreta símbolos.
O povo lê sinais.
E quando Executivo e Judiciário aparecem em clima de tanta proximidade justamente num país marcado por acusações constantes de perseguição política, censura, decisões monocráticas e tensão institucional, muitos brasileiros sentem que determinadas respostas começam a aparecer diante de seus olhos.
Enquanto isso, o povo enfrenta inflação, dificuldade financeira, insegurança, impostos, medo e perda de poder de compra. E, ao mesmo tempo, assiste autoridades celebrando em ambientes festivos, entre samba, pagode, risadas e confraternizações.
Isso provoca indignação.
Porque para quem está do lado de fora, lutando para sobreviver, parece existir um país completamente diferente daquele vivido pelas elites políticas e institucionais.
A esquerda sempre teve habilidade na construção de narrativas. Isso eu aprendi convivendo dentro dela. E hoje vejo uma estratégia muito clara: arrastar todos para dentro do mesmo lamaçal político, de forma que o cidadão passe a acreditar que ninguém presta, que tudo é encenação e que não existe mais diferença entre aqueles que realmente defendem valores e aqueles que vivem apenas da manipulação política.
Mas eu faço uma separação.
Foi exatamente por enxergar essa incoerência dentro da esquerda que hoje defendo a direita e apoio Jair Bolsonaro.
Não porque ele seja perfeito.
Mas porque, na minha visão e na visão de milhões de brasileiros, existe nele algo raro na política brasileira: coerência entre discurso, valores e prática.
E talvez tenha sido exatamente por isso que aquelas cenas causaram tanto desconforto em parte da população brasileira.
Porque para o povo, certos gestos falam mais do que discursos.
O povo pode até não conhecer os bastidores do poder.
Mas sabe reconhecer quando existe verdade… e quando existe teatro.























