Por Mário Plaka (*)
Há uma verdade antiga que atravessa os séculos e continua extremamente atual: as pessoas se aproximam por afinidade de ideias, valores e propósitos. Não é por acaso que determinados grupos caminham juntos. Não é por acidente que certas bandeiras são defendidas pelos mesmos setores. E não é coincidência que determinadas escolhas políticas revelem, também, a visão de mundo daqueles que as apoiam.
“Porventura andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?” (Amós 3:3)
Recentemente, ao assistir à entrevista de um servidor público ocupante de cargo de confiança, fiquei impressionado com algumas declarações. Surgiu, então, uma pergunta inevitável: como alguém pode ocupar determinada função sem demonstrar conhecimento adequado sobre aquilo que administra?
A resposta talvez esteja em duas possibilidades: ou a pessoa desconhece profundamente o tema sobre o qual fala, ou está comprometida em defender interesses que nem sempre correspondem ao interesse público.
Foi então que me veio à mente a conhecida expressão bíblica: “um abismo chama outro abismo”. Más escolhas atraem novas escolhas equivocadas. Erros de julgamento produzem consequências que se multiplicam. Uma decisão mal tomada hoje pode abrir caminho para problemas ainda maiores amanhã.
Quando o cidadão entra na cabine de votação, não escolhe apenas um nome. Escolhe também, ainda que indiretamente, uma equipe inteira: assessores, ocupantes de cargos de confiança, secretários, conselheiros e toda uma estrutura que ajudará a conduzir os rumos da administração pública.
Ninguém governa sozinho. Ninguém legisla sozinho. Ninguém administra sozinho.
Por isso, muitas vezes, a equipe revela tanto quanto o próprio líder.
Quando observamos determinados discursos sendo repetidos por diferentes pessoas, em diferentes espaços, percebemos que existe uma sintonia de pensamento. E isso não acontece apenas nos altos escalões do poder. Está presente também nas ruas, nas redes sociais, nos ambientes de trabalho, nas instituições e até mesmo dentro de algumas famílias.
Frequentemente apontamos o dedo para governantes, parlamentares e autoridades. Mas esquecemos que existe uma base social que sustenta, legitima e reproduz as mesmas ideias. Muitos dos comportamentos que criticamos nos palácios e gabinetes aparecem, em escala menor, no cotidiano da própria sociedade.
O político não surge do nada.
Ele emerge de uma cultura, de uma mentalidade e de um conjunto de valores compartilhados por parte da população.
Por isso afirmo: o eleitor é, muitas vezes, a sombra do seu político.
Isso não significa concordar com absolutamente tudo. Significa, porém, existir uma identificação mínima capaz de justificar apoio, defesa e permanência ao lado daquele projeto.
Quem acredita na valorização da família tende a aproximar-se de quem defende a família. Quem acredita na liberdade tende a apoiar quem protege a liberdade. Quem valoriza o trabalho tende a caminhar ao lado de quem respeita o esforço produtivo. Da mesma forma, aqueles que compartilham outras visões buscarão representantes alinhados às suas próprias convicções.
As alianças revelam prioridades. As companhias revelam escolhas. Os discursos revelam convicções.
Por isso, mais importante do que observar apenas os candidatos, é observar os grupos que os cercam, os valores que defendem e os projetos que pretendem construir.
Uma nação não é transformada apenas por leis, decretos ou discursos. Ela é moldada diariamente pelas escolhas de milhões de pessoas comuns. O futuro de um povo começa nas convicções que aceita, nos princípios que preserva e nos valores que decide transmitir às próximas gerações.
Se desejamos uma sociedade melhor, devemos começar examinando não apenas aqueles que ocupam o poder, mas também as ideias que estamos alimentando, defendendo e reproduzindo.
Porque, no fim das contas, nenhum sistema se sustenta sozinho. Ele depende de pessoas. E toda engrenagem, grande ou pequena, participa do resultado.

























