Por Mário Plaka (*)
Existe um velho ditado mineiro que diz: cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça. Quando a cobra morde, até um pedaço de linguiça jogado perto do cachorro passa a ser motivo de desconfiança. Ele recua, olha, observa e não acredita mais facilmente. É exatamente assim que está uma parte do povo brasileiro diante da política. Depois de tantas promessas, tantos discursos e tantos acontecimentos que deixaram marcas, o eleitor passou a desconfiar até quando alguém aparece dizendo que agora será diferente.
A eleição deste domingo mostrou esse sentimento. Durante a apuração presidencial, Flávio Bolsonaro chegou a ultrapassar 51% dos votos, abrindo uma diferença próxima de dez pontos sobre Lula. Depois vieram oscilações expressivas, momentos de espera e uma tensão enorme entre os eleitores. Quando a apuração avançou, os números haviam mudado significativamente, até chegar ao resultado que levou os dois ao segundo turno. Oscilação na totalização, por si só, não prova fraude. Mas também não se pode ignorar a pergunta que ficou no ar: por que o cidadão brasileiro continua tão desconfiado do processo eleitoral? Por que momentos de interrupção, demora ou falta de informação clara provocam novamente aquela sensação de insegurança? Se o sistema é seguro, auditável e confiável, então que se mostre, que se explique e que se permita ao cidadão compreender.
Essa desconfiança também não começou ontem. O brasileiro vem acompanhando decisões judiciais e disputas institucionais que aumentaram o sentimento de insegurança. No Paraná, houve toda a controvérsia envolvendo Deltan Dallagnol e decisões diferentes sobre sua candidatura. No Ceará, decisões de ministros do Supremo alcançaram diretamente questões da disputa eleitoral e da propaganda, provocando reação da campanha de Ciro Gomes. Também houve questionamentos envolvendo intervenções judiciais relacionadas ao processo eleitoral e aos debates. Não estou afirmando que essas decisões sejam, por si mesmas, prova de fraude ou ilegalidade. Estou fazendo uma pergunta: até onde pode ir a atuação de uma instituição? Onde termina a competência de um tribunal e começa uma interferência que o cidadão passa a enxergar como política? Quem fiscaliza quem fiscaliza?
É preciso ter coragem para fazer essas perguntas sem transformar tudo em acusação e sem tratar todo questionamento como desinformação. A democracia não pode depender de fé cega em instituições. Instituições democráticas precisam ser fortes, mas também precisam ser transparentes e estar sujeitas ao controle previsto na própria democracia. Quem tem poder precisa prestar contas. Quem toma decisões que afetam milhões precisa explicar suas decisões.
E o problema não está somente no Executivo ou em um determinado partido. O povo brasileiro está desconfiado dos políticos de maneira geral. Chega a eleição, aparecem promessas. Depois da eleição, muitas vezes aparece outra realidade. O cidadão olha para Brasília, olha para os governos estaduais e municipais, olha para as instituições e pergunta: quem está realmente trabalhando pelo povo?
Agora teremos mais algumas semanas até o segundo turno. E eu espero que o Senado Federal compreenda a responsabilidade que recebeu. Espero também que os deputados federais eleitos, inclusive aqueles que chegaram com forte apoio de lideranças políticas, entendam que mandato não é prêmio, não é propriedade e não é instrumento para benefício pessoal. Mandato é responsabilidade diante do eleitor. O Brasil precisa de parlamentares que tenham coragem de cumprir seu dever, independentemente de quem esteja no governo.
Ontem, antes de votar, eu estava entre os primeiros da minha fila. E ali fiz uma oração: “Senhor, toma a direção deste país.” Porque, para mim, o que está acontecendo não é apenas uma questão política. Existe também uma dimensão espiritual. A Bíblia nos ensina que nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra principados, potestades e dominadores deste tempo presente. Por isso, precisamos redobrar a oração e o jejum.
Mas oração não significa ficar parado. Precisamos fazer a nossa parte.
Precisamos orar, jejuar, fiscalizar, cobrar, participar e agir. Precisamos compreender que aquilo que queremos para o Brasil precisa ser buscado na Terra enquanto pedimos direção aos céus. Não podemos entregar nosso país simplesmente nas mãos de políticos ou de instituições e depois reclamar do resultado.
Talvez essas semanas de agonia sejam também uma oportunidade para o brasileiro acordar. Para perceber que a mudança não depende somente de quem ocupa o Palácio do Planalto, o Congresso, os tribunais ou os governos. Depende também do cidadão.
Porque o eleitor brasileiro está como aquele cachorro do velho ditado mineiro: já foi mordido e, por isso, desconfia da linguiça.
Agora, quem quiser recuperar a confiança desse povo vai precisar fazer muito mais do que prometer.
Vai precisar provar.























