Por Mário Plaka (*)
Uma máfia, uma facção criminosa ou uma organização criminosa não é um ser abstrato. Ela é formada por pessoas. Tem quem pense, quem mande, quem financie, quem execute, quem intermedeie, quem proteja e quem movimente dinheiro. Uma organização pode ter empresa, fundo, contrato, CNPJ e toda uma aparência de legalidade, mas quem dá voz e vida a tudo isso é o CPF. É gente falando com gente.
Foi assim na Itália. É assim na Colômbia. E é assim que precisamos olhar para o Brasil. A experiência de combate às máfias mostra que não basta cortar uma cabeça e imaginar que a estrutura morreu. As raízes podem permanecer vivas. A organização muda de nome, muda de operador, muda de método, muda de endereço e procura novas portas de entrada. E quando o crime organizado ultrapassa a fronteira das ruas e começa a aparecer conectado a dinheiro, negócios, política, advocacia, instituições financeiras, autoridades públicas e até instituições religiosas, a pergunta deixa de ser apenas quem é o criminoso. Passa a ser: quem se relaciona com quem, para fazer o quê e em benefício de quem?
Dos Anões do Orçamento à Lava Jato, dos Correios ao INSS, chegando ao Banco Master, quantas operações da Polícia Federal e das polícias civis pelos estados já prenderam criminosos, bloquearam bens e recuperaram dinheiro? Quantas vezes a estrutura pareceu ruir para, depois, outras ramificações aparecerem? Talvez a pergunta seja justamente esta: cortamos os galhos, mas quantas vezes deixamos a raiz viva?
É por isso que volto à minha afirmação. Se uma pessoa está comprovadamente ligada a uma organização criminosa e, conscientemente, utiliza sua rede de contatos para influenciar, contratar, financiar, intermediar ou obter vantagens para essa organização, essa pessoa não está simplesmente “relacionada” ao crime organizado. Ela pode estar atuando a serviço dele. A diferença não está no discurso. Está na finalidade da relação e na prova dos atos.
E então começam as perguntas que incomodam: quem contratou? Quem pagou? Quem recebeu? Quem intermediou? Quem abriu a porta? Quem tomou a decisão? Quem sabia da origem do dinheiro? Quem tinha poder para produzir algum resultado? Quem se beneficiou?
Quando aparecem, numa mesma investigação, dinheiro, empresas, banqueiros, operadores, políticos, advogados e autoridades públicas, a questão não pode se limitar ao “eles se conheciam?”. Conhecer alguém não é crime. Contratar alguém não é crime. Viajar com alguém não é crime. Ter uma relação profissional não é crime. Mas o que estava sendo feito por meio dessa relação?
É aí que a investigação precisa sair do CNPJ e chegar ao CPF.
Porque uma organização criminosa não assina contrato sozinha. Não telefona sozinha. Não faz transferência sozinha. Não procura um político sozinha. Não procura um advogado sozinha. Não conversa com uma autoridade sozinha. Pessoas fazem isso.
E se essas pessoas sabiam para quem estavam trabalhando, qual era a origem dos recursos, qual era a finalidade da operação e, ainda assim, atuaram conscientemente para favorecer uma estrutura criminosa, então a discussão muda completamente de patamar.
A pergunta deixa de ser “quem conhece quem?” e passa a ser: quem estava trabalhando para quem?
Essa é a pergunta difícil. E talvez seja justamente a pergunta que mais precise ser respondida.
Mas há uma questão ainda maior, especialmente agora, quando o brasileiro está diante de um segundo turno eleitoral para escolher o presidente da República: que tipo de político merece a confiança do eleitor quando o assunto é o combate ao crime organizado?
Porque, enquanto facções ampliam sua presença, disputam territórios, ameaçam famílias, expulsam moradores de suas próprias casas e transformam comunidades em áreas de medo, não basta perguntar quem está cometendo o crime. É preciso perguntar quem combate, quem se omite, quem relativiza, quem passa pano e quem, tendo poder para agir, prefere não enxergar.
E aqui entra o voto. Quem protege, relativiza ou tenta esconder a gravidade dos fatos precisa ser observado pelo eleitor. Isso não significa condenar alguém sem provas. Significa exigir explicações. Por que determinada autoridade não enfrenta determinado problema? Por que determinado legislador silencia? Por que determinados interesses parecem sempre encontrar portas abertas? Quem ganha quando o Estado recua e o crime avança? E, principalmente: por que será que alguns políticos parecem tão preocupados em proteger quem deveria estar sendo investigado?
O eleitor não precisa ser investigador, delegado ou juiz. Mas precisa aprender a observar. Precisa olhar para os atos, para os discursos, para os aliados, para as omissões e para as relações de poder. Porque o voto também é uma forma de fiscalização. E quando uma organização criminosa deixa de ser apenas uma ameaça nas ruas e passa a buscar influência dentro das instituições, a pergunta deixa de ser somente “quem está trabalhando para quem?”. Passa a ser também: quem o eleitor está colocando no poder para combater isso?
No dia da eleição, não existe apenas um nome na urna. Existe uma responsabilidade. O eleitor precisa saber em quem está confiando, quem essa pessoa defende, quem ela enfrenta e, sobretudo, de que lado está quando o crime organizado avança sobre o cidadão.
Porque a máfia não é abstrata. Ela tem CPF. E o poder público também.























