Por Mário Plaka (*)
Dizem que, numa pequena cidade, havia um homem que passava anos apontando para determinada casa e dizendo que ali morava gente que não prestava. Contava histórias, fazia acusações e dizia que jamais atravessaria aquela ponte. O tempo passou, a política mudou e, certa manhã, para surpresa de muitos, o mesmo homem apareceu sorrindo na varanda daquela casa, como velho conhecido.
Ninguém está proibido de mudar de opinião. Pessoas podem reconhecer erros, fazer as pazes e reconstruir relações. Mas quem estava do outro lado da rua fez uma pergunta simples: se ontem aquele homem era apresentado como alguém que não prestava, o que aconteceu para que hoje ele se tornasse parceiro? Mudaram os fatos ou mudou a conveniência?
E aí surge outra questão: desde quando diploma é certificado de competência ou de caráter? Se alguém não é médico, não pode administrar um hospital? Se não possui diploma de administração, necessariamente não entende de gestão? A vida real responde a essas perguntas todos os dias.
Há pessoas que construíram empresas, patrimônios e verdadeiros impérios sem uma faculdade. E existe uma história que se repete em muitas famílias: o pai começa do zero, trabalha uma vida inteira, constrói um patrimônio com experiência, coragem e conhecimento adquirido na prática. Então chegam os filhos, formados, cheios de diplomas e teorias — e, algumas vezes, conseguem destruir em poucos anos aquilo que o pai levou décadas para construir.
O diploma pode abrir uma porta, mas não garante que a pessoa saberá conduzir aquilo que encontrará do outro lado. Conhecimento acadêmico tem valor, mas experiência, prudência, caráter e capacidade também têm.
O eleitor precisa olhar o político antes, durante e depois. Precisa lembrar o que foi dito quando não havia interesse em agradar, observar as alianças quando os interesses aparecem e acompanhar as atitudes quando chega a hora de decidir. Quem ontem apontava o dedo e hoje estende a mão pode perfeitamente ter mudado de opinião.
Mas o eleitor também pode perguntar por quê. Não é perseguição. Não é condenação. É memória. Porque política não pode ser um teatro em que o discurso muda conforme muda o palanque. Quem ontem dizia “não” e hoje diz “sim” precisa explicar a mudança — e o eleitor precisa estar atento para ouvir a explicação.
No fim, fica a velha história da ponte: não há problema em atravessar para o outro lado. O problema é esquecer o que se dizia sobre quem morava lá quando se estava do lado de cá. Campanha passa, fotografia envelhece, palanque desmonta.
O que fica é a história. E o eleitor que não tem memória acaba votando apenas na fotografia do presente, esquecendo o filme inteiro.























